A cantora, compositora, percussionista e pesquisadora pernambucana Alessandra Leão, uma das principais referências da música brasileira contemporânea na valorização das tradições afro-indígenas, ministra nesta sexta (24), das 14h às 18h, a Oficina de Toques de Ilú, na Vila Cultural AlmA Brasil, em Londrina. A atividade reúne formação musical, tradição oral e cultura popular em uma vivência voltada a músicos, artistas, estudantes e interessados nas manifestações afro-brasileiras, sem exigir experiência prévia.
Além da oficina, Alessandra também participa de apresentação musical, no domingo (26), ao lado do grupo Caburé Canela, na programação cultural do Festival Dobra de Arte Imprensa, promovido Vila Cultural Grafatório.

Muito além da música
O Ilú é um tambor tradicional de Pernambuco utilizado principalmente nos rituais do Xangô Pernambucano e da Jurema Sagrada. Mais do que um instrumento de percussão, representa um importante patrimônio cultural e espiritual, preservando conhecimentos transmitidos entre gerações e fortalecendo a memória das comunidades afro-indígenas do Nordeste.
Durante a oficina, os participantes conhecerão os fundamentos do instrumento, seus principais toques, ritmos e formas de execução, além dos contextos históricos, religiosos e culturais que envolvem essa tradição.
Para Alessandra Leão, compreender o Ilú significa compreender também sua dimensão sagrada. “O Ilú é esse tambor que a gente usa nos terreiros em Pernambuco, tanto nas casas de Xangô quanto nas casas de Jurema. Assim como acontece em outras tradições de matriz africana, ele é reverenciado, é uma entidade. O tambor come, a gente bate cabeça para o tambor, existe toda uma relação sagrada com o instrumento.”
Segundo ela, compartilhar esse conhecimento é uma forma de preservar uma herança fundamental para a cultura brasileira. “Há cerca de onze anos eu dou aula de Ilú justamente para ampliar essa formação, tanto no instrumento quanto, principalmente, sobre o repertório e a função desse instrumento na sociedade. A música de terreiro funda, de muitas maneiras, a música brasileira. É sobre isso que eu acho importante que a gente siga amplificando.”
Tradição que inspira a criação artística
Natural de Pernambuco, Alessandra Leão construiu uma trajetória marcada pela pesquisa das culturas tradicionais e pela criação musical contemporânea. Fundadora da banda Comadre Fulozinha, levou ao cenário nacional uma sonoridade que dialoga com o coco, o maracatu, a ciranda, os tambores sagrados e outras expressões da cultura popular nordestina.
Com mais de três décadas de carreira, nove álbuns lançados e indicações ao Grammy Latino, Prêmio da Música Brasileira e WME Awards, além do Prêmio Grão de Música, a artista também desenvolve um importante trabalho como educadora.
Ela afirma que sua formação artística nasceu do contato direto com as manifestações populares pernambucanas. “Minha trajetória começa na relação com a cultura popular, desde pequena, no frevo, vendo os maracatus passarem e convivendo com o forró por causa da minha família. Quando comecei a conhecer tradições como o maracatu de baque solto, o cavalo-marinho, o coco e a ciranda, foi ali que me fundei como artista. Sempre digo que essa é a minha escola.”
Segundo Alessandra, essa convivência evidencia a força das matrizes afro-indígenas na formação cultural brasileira. “Essa é uma escola de tradições afro-americanas e afro-indígenas. Esse é o fundamento da cultura popular no Brasil. Algumas tradições são mais negras, outras mais indígenas, outras bastante misturadas, mas é esse conjunto que funda o Brasil.”
Oficina une prática, história e reflexão
A proposta da oficina vai além da aprendizagem técnica. O encontro combina prática musical, contextualização histórica e momentos de diálogo sobre os significados culturais e religiosos do Ilú. “A ideia é aproveitar bem esse tempo para tocar, conhecer a história do tambor, falar sobre a forma como ele é usado e trabalhar algumas técnicas específicas do instrumento. Vamos aprender um ritmo, cantar, entender como a melodia dialoga com a percussão. É uma aula com muita prática, muita conversa e costuma ser muito prazerosa.”
Os participantes podem utilizar outros tambores de mão durante as atividades, ampliando as possibilidades de experimentação musical.
Vila Cultural AlmA Brasil fortalece a formação cultural
A realização da oficina reforça o compromisso da Vila Cultural AlmA Brasil com a valorização das culturas populares, da formação artística e da democratização do acesso ao conhecimento. O espaço tem se consolidado como referência em Londrina na promoção de atividades que aproximam artistas, pesquisadores e comunidade em torno da diversidade cultural brasileira.
Para Alessandra Leão, iniciativas como essa tornam-se ainda mais importantes diante do crescimento da intolerância religiosa e da necessidade de reconhecer o valor das tradições populares. “Olhar para o Brasil e reconhecer as culturas populares como algo tão importante é sempre urgente. A cultura popular existe apesar da história e de tudo o que tentaram fazer com os povos africanos e indígenas. Ainda mais num momento de crescimento da intolerância religiosa, encontros como esse ajudam a construir tempos mais apaziguados.”
Ela ressalta que o objetivo é multiplicar conhecimentos e fortalecer o respeito à diversidade cultural. “Minha pretensão é que isso reverbere para outras pessoas, para além de quem estiver na aula. Estou muito feliz com esse fim de semana na cidade. Espero que a gente se encontre e que eu volte mais vezes. Um cheiro, axé e até já.”

SERVIÇO:
Oficina de Toques de Ilú – com Alessandra Leão
Data: 24 de julho (sexta-feira)
Horário: das 14h às 18h
Local: Vila Cultural AlmA Brasil
Inscrições: Encerradas.
A oficina conta com patrocínio do PROMIC – Programa Municipal de Incentivo à Cultura.
Por Thiago Furini


