TRANSmuteAR transforma espaços públicos de Londrina em galeria interativa

TRANSmuteAR - Foro divulgação

Uma estrutura semelhante a uma grande caixa de transporte tem despertado a curiosidade de quem circula por feiras, praças e outros espaços públicos de Londrina. Por meio de pequenas frestas, o público é convidado a observar projeções de fotografias, performances, textos poéticos e imagens produzidas por artistas brasileiros e estrangeiros. Trata-se do Cubo Expositivo do projeto TRANSmuteAR — Uma Exposição em Trânsito, iniciativa que transforma diferentes pontos da cidade em uma galeria interativa, gratuita e itinerante.

Idealizado pelo ator, diretor de teatro e cinema Paulo Barcellos, o projeto inverte a lógica convencional dos espaços expositivos: em vez de esperar que o público visite uma galeria ou um museu, leva a produção artística aos locais onde as pessoas vivem, trabalham, circulam e convivem.

O TRANSmuteAR surgiu em 2019, no ambiente digital, como uma performance de longa duração realizada por Barcellos nas redes sociais. Durante seis anos, o artista produziu cerca de 600 fotografias nas quais utilizava objetos cotidianos, plantas e elementos encontrados ao seu redor para criar “mascaramentos efêmeros” e experimentar outras formas de representar o próprio corpo.

Segundo o idealizador, as imagens nasceram como uma resposta ao conservadorismo e à ideia de que pessoas, objetos e identidades deveriam permanecer imutáveis.“Eu afirmava que as coisas podem ser diferentes e que podemos ser de um jeito ou de outro, mesmo que seja por um instante. O projeto foi amadurecendo durante seis anos, até que encontrei um formato capaz de levar esse trabalho para a rua”, explica Paulo Barcellos.

A transformação do acervo digital em uma instalação física representa, para ele, um novo estágio da pesquisa artística. “Foi um salto dentro de um processo longo de amadurecimento. Em vez de o público precisar ir a uma galeria ou a um museu, estamos levando esse espaço, o meu trabalho e as obras das pessoas convidadas para onde o público está”, afirma.

Uma caixa que guarda imagens, sons e poesia

TRANSmuteAR – Foto divulgaçao

A exposição acontece dentro do chamado Cubo Expositivo, uma estrutura modular de dois metros de altura, largura e profundidade, concebida por Paulo Barcellos em parceria com o cenógrafo Gelson Amaral.

Externamente, a instalação apresenta uma aparência rústica, semelhante a uma caixa fechada por tapumes. Ao se aproximarem, porém, os visitantes encontram frestas e orifícios posicionados em diferentes alturas. As aberturas foram planejadas para permitir a participação de adultos, crianças e pessoas que utilizam cadeira de rodas.

Por meio delas, o público observa projeções simultâneas nas quatro paredes internas da estrutura. As imagens são acompanhadas por uma intervenção sonora original criada por Rayra Costa, que também ajuda a anunciar a presença do cubo no espaço urbano.

Barcellos compara a instalação a um objeto não identificado que aparece inesperadamente no cotidiano da cidade. “O cubo é quase como uma nave espacial. É um objeto estranho naquele lugar, seja na feira, na praça ou no Calçadão. A música chama as pessoas e desperta a curiosidade. É muito interessante observar o público olhando, tentando entender o que é aquilo e apreciando o trabalho sem saber, inicialmente, quem o produziu”, relata.

Para o artista, a experiência também modifica sua própria relação com a obra. Diferentemente das performances originais, nas quais seu corpo estava diretamente presente, o contato com o espectador agora acontece por meio da instalação. “O trabalho continua próximo da performance, mas não passa mais diretamente pelo meu corpo. O entendimento da obra acontece por outro processo, que eu também estou tentando compreender melhor”, acrescenta.

Arte no caminho do público

TRANSmuteAR – Foto divulgaçao

A circulação por locais centrais e periféricos permite que o TRANSmuteAR alcance pessoas com diferentes relações com a arte contemporânea. O cubo já foi instalado em espaços como a Feira da Lua, o Aterro do Lago Igapó e o Calçadão de Londrina, em frente ao Cine Teatro Universitário Ouro Verde, durante o encerramento do Festival Internacional de Música de Londrina.

A reação do público, conforme Barcellos, varia entre a desconfiança inicial, a surpresa e a vontade de permanecer diante da instalação. “Encontramos públicos muito diferentes e reações das mais diversas. Algumas pessoas ficam receosas, imaginando que possa ser algum tipo de pegadinha. Outras leem os textos, observam as imagens, permanecem durante algum tempo e depois querem conversar. Está sendo um momento muito especial”, conta.

Ao ocupar feiras livres, parques, praças e ruas, o projeto busca provocar uma mudança na maneira como a população percebe os espaços públicos. A proposta é interromper, ainda que momentaneamente, o ritmo acelerado da cidade e chamar a atenção para aquilo que existe fora das telas digitais.“Queremos provocar um reencantamento do espaço urbano e chamar a atenção das pessoas para o que está ao redor, fora do mundo virtual e até mesmo para aquilo que existe dentro de cada uma delas”, destaca o idealizador.

Exposição permanece em transformação

A experiência visual das projeções é construída por meio de uma edição de vídeo que aproxima as imagens do fluxo urbano. O projeto também incorpora textos poéticos de Karen Debértolis, ambientação sonora de Rayra Costa e curadoria de Fernanda Magalhães, além do trabalho de outros profissionais das áreas de audiovisual, cenografia e produção cultural.

Depois de desenvolver as primeiras imagens de forma predominantemente individual, Barcellos considera que a chegada de outros artistas ampliou as possibilidades de interpretação do trabalho. “Depois de um período longo e solitário de produção, foi muito importante trazer outras pessoas. A equipe contribuiu com generosidade, ideias e diferentes pontos de vista. Isso deu ao projeto uma variedade muito maior”, afirma.

A colaboração também ultrapassou as fronteiras nacionais. Para ampliar o acervo, a produção enviou cartas-convite em português, inglês, espanhol e francês para aproximadamente 50 pessoas de pelo menos dez países. Cerca de 40 imagens produzidas por colaboradores estrangeiros passaram a integrar a exposição.

A intenção é que novos trabalhos continuem sendo recebidos e incorporados às projeções. “A ideia é que a exposição esteja em trânsito não apenas pela cidade. Ela própria deve permanecer em movimento e em construção. Conforme as pessoas enviam novos trabalhos, podemos incluí-los nas edições dos vídeos exibidos dentro do cubo”, explica Barcellos.

Direito de ser muitas coisas

Mais do que apresentar fotografias, o TRANSmuteAR propõe uma reflexão sobre identidade, liberdade e transformação. O título do projeto parte do verbo “transmutar”, associado à possibilidade de mudar de forma, estado ou natureza.

Nas imagens, objetos banais deixam de exercer suas funções originais e passam a esconder, prolongar ou transformar o corpo do artista. Baldes, cortinas, plantas e outros materiais cotidianos são convertidos em máscaras, figurinos e composições visuais.

Para Barcellos, o principal convite da exposição é para que as pessoas se permitam experimentar diferentes formas de existir, sem a obrigação de corresponder permanentemente a padrões de perfeição, uniformidade ou comportamento. “A principal reflexão é se permitir ser outra coisa, ser o que quiser ser. Não precisamos ser perfeitos ou apresentar uma única versão de nós mesmos. Podemos ser ridículos, sensuais, fortes, frágeis e muitas outras coisas. O mundo exige que sejamos cada vez mais uniformes e homogêneos, mas o trabalho afirma justamente o contrário: podemos ser o que quisermos. Isso é transmutear”, conclui.

Democratização cultural

Financiado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina, o Promic, o projeto amplia o acesso gratuito à arte contemporânea e descentraliza a programação cultural, levando-a para além dos equipamentos tradicionais.

A iniciativa também movimenta a economia criativa da cidade. A construção da estrutura, a cenografia, a produção audiovisual, a curadoria e as demais etapas foram realizadas por artistas, profissionais e empresas ligados ao setor cultural.

Ao utilizar o espaço público como suporte artístico, o TRANSmuteAR transforma locais de passagem em ambientes de contemplação e encontro. Por alguns minutos, o cubo convida o cidadão a interromper o percurso, afastar-se das telas convencionais e observar outras possibilidades de relação consigo mesmo, com o outro e com a cidade.

Próximas intervenções

O Cubo Expositivo poderá ser visitado neste domingo, 26 de julho, a partir das 9h30, na Feira Livre dos Cinco Conjuntos. A instalação também estará no Zerão no dia 2 de agosto, das 13h às 16h. No dia 5 de setembro, retorna ao Calçadão de Londrina, das 9h30 às 12h30, na altura do número 541 da Av. Paraná. O cronograma completo de intervenções, previstas até dezembro, pode ser acompanhado pelo perfil @trans.mute_ar, no Instagram.

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