Festival das Diversidades ocupa a Zona Sul

O 3º Festival das Diversidades – Circuito Paraná Plural encerra sua programação neste sábado (29) com uma ocupação de 12 horas na Praça da Juventude, na Zona Sul de Londrina. Das 10h às 22h, música, teatro, dança, artes visuais, esporte, feira, gastronomia e atividades para crianças dividem o mesmo espaço em uma programação gratuita construída em diálogo com artistas, feirantes, lideranças e moradores da região.

Produzido pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), pelo programa de extensão Práxis Itinerante e pela produtora cultural Kapanga Criativa, o festival chega à praça depois de passar por diferentes espaços de Londrina. Mais do que escolher um local para o encerramento, a proposta é fortalecer uma relação que já existe com a comunidade da Zona Sul.

Segundo o diretor-geral do festival, Tiago Daniel, ator e graduando em Ciências Sociais na UEL, o Práxis Itinerante mantém há anos atividades no território, entre cursinhos, oficinas e outras ações. Por isso, levar o festival para a Praça da Juventude tem um significado especial. “Para a gente é extremamente importante encerrar as nossas mostras do terceiro Festival das Diversidades e Circuito Paraná Plural na Zona Sul de Londrina, na Praça da Juventude, um território em que a gente já trabalha há anos através do Programa Práxis Itinerante”, afirma.

A relação com o espaço também aparece na construção da programação. O festival foi articulado com lideranças locais, artistas e feirantes que já fazem parte do cotidiano da região. A ideia, explica Daniel, é realmente ocupar a praça e aproveitar sua vocação como ponto de convivência. “Tem esporte rolando por lá, pista de skate liberada, quadra de areia, jogos e brincadeiras para as crianças, pintura facial, feira, praça de alimentação, uma programação extensa com várias bandas e grupos musicais e apresentações de teatro. Estamos voltando para a praça e, mais uma vez, para a Zona Sul. Isso é extremamente especial para a gente”, destaca.

Do teatro ao rap, do samba ao skate

Etnia Rap – Foto Jards

As atividades começam às 10h, com o espaço KorpoKorpa, dedicado a espetáculos teatrais e performances. A partir das 13h, o palco Recô-Tuin recebe apresentações de dança e shows que percorrem diferentes gêneros musicais, do rock ao samba e ao rap. Entre os nomes confirmados estão a rapper Majis, o grupo Etnia Rap e João Braga, o Braguinha, um dos pioneiros do samba londrinense.

Para Tiago Daniel, reunir diferentes linguagens é parte essencial da identidade de um festival que entende a diversidade também a partir das formas de expressão e das maneiras de ocupar a cidade. “Nós somos um festival para corpos marginalizados, um festival para as diversidades, no plural. E a gente preza muito por essa diversidade na nossa programação. É para quem quer curtir um rock, um samba, MPB, rap, uma apresentação de teatro, uma performance, conhecer a feira ou simplesmente sair de casa, comer alguma coisa, jogar vôlei e andar de skate”, explica.

Ao longo do dia, a Feira das Diversidades reúne expositores de roupas, acessórios, artesanato, zines, adesivos, impressões e outros produtos. A programação também reserva espaço para esporte e recreação, com vôlei de areia e oficina de iniciação ao skate com o SK8.SKOLA, projeto social que já atua na Praça da Juventude com crianças e adolescentes. Uma praça de alimentação completa a estrutura do evento.

“A história que a história não conta”

Exposição Dona Vilma - foto Thais Fernanda
Exposição Dona Vilma – foto Thais Fernanda

A ocupação da praça também abre espaço para discutir memória e representatividade. Durante todo o evento, o público poderá conhecer a Mostra Willian Santiago, que apresenta a exposição “Pioneirismos”, dedicada a personagens ligados à construção de uma Londrina mais diversa.

Com o lema “a história que a história não conta”, a mostra questiona a ideia tradicional de quem é reconhecido como pioneiro e chama atenção para a presença de pessoas negras, mulheres, população LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência e outros grupos historicamente marginalizados na formação cultural e social da cidade.

O acervo inclui um ensaio fotográfico realizado na Casa do Pioneiro, no campus da UEL, e uma série de entrevistas disponibilizadas em plataformas digitais. Entre os homenageados citados por Tiago Daniel estão Dhi Ferreira, Melk, Oscar do Nascimento, Malu Gimenez, Beatriz Batista, Edna Aduiar, Dona Vilma Yá-Mukumby, Tai Guedes, Fran Camilo, Kennedy Piau e William Santiago.

“São pessoas que fizeram ou fazem a diferença em Londrina, que construíram e constroem futuros para os corpos marginalizados. Isso, para a gente, é fundamental. É ocupar a praça, curtir e ouvir música, mas também lembrar quem fez e quem faz isso acontecer de fato”, ressalta Daniel.

A programação apresenta ainda a exposição “Dona Vilma Santos de Oliveira: A trajetória de Yá Mukumby”, que recupera diferentes momentos da vida de uma das mais importantes lideranças do movimento negro no Paraná. Fotografias cedidas pela neta, Solana Titiloyê Oliveira Rodrigues, percorrem desde a infância e a entrada na militância até a iniciação no candomblé e sua trajetória como liderança, interrompida pelo assassinato de Yá Mukumby em 2013, aos 63 anos.

Diversidade como direito à cidade

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Praça da Juventude – foto Emerson Dias

A escolha da Praça da Juventude reforça ainda outra dimensão do festival: a defesa do espaço público como lugar de encontro. Fundada em 2013 e revitalizada em 2025, a praça passou a ser denominada Complexo da Cidadania da Zona Sul – Adeilza Maria de Souza. O local é um importante ponto de convivência para moradores da região, especialmente jovens de bairros como Jardim União da Vitória e Parque das Indústrias.

Ao chegar à terceira edição, o Festival das Diversidades também carrega os desafios de manter um evento dedicado à pluralidade e à presença de grupos historicamente marginalizados nos espaços públicos. Para Tiago Daniel, realizar o festival exige organização, persistência e disposição para enfrentar barreiras. “Não é uma tarefa fácil tocar um festival na cidade dos festivais, mas também não é fácil tocar um festival para corpos marginalizados, um festival que se propõe a ocupar espaços públicos”, afirma.

Aos 21 anos, Daniel relaciona essa atuação também à própria experiência como jovem artista negro de Londrina. Para ele, o festival é apenas uma das iniciativas necessárias para transformar a relação da cidade com sua própria diversidade. “Eu cresci com o racismo, com a violência, com todas essas questões que atravessam o meu corpo e o corpo de tantas outras pessoas ao meu redor. O Festival das Diversidades é um grão de arroz em meio a tanta coisa que a gente ainda precisa fazer para transformar Londrina em uma cidade que, de fato, possa se chamar de plural”, diz.

É justamente essa transformação que ajuda a explicar o encerramento na Zona Sul. Depois de circular pela cidade, o Festival das Diversidades termina sua terceira edição fazendo da praça não apenas um endereço para apresentações, mas um lugar para encontro, memória, lazer, representatividade e celebração das diferentes formas de existir e produzir cultura em Londrina.

Serviço — 3º Festival das Diversidades – Circuito Paraná Plural
Data: sábado, 29 de agosto
Horário: das 10h às 22h
Local: Praça da Juventude – Complexo da Cidadania da Zona Sul Adeilza Maria de Souza, Avenida Guilherme de Almeida, Zona Sul de Londrina
Entrada: gratuita

Hora do Sabbat: Resiliência