O jornalista, ator, escritor e documentarista Ney Inácio lança nesta terça-feira (22), às 19h, no Sesc Londrina Cadeião Cultural, o livro “O menino que virava do avesso – Londrina 1964”. Com entrada gratuita, o encontro acontece na Galeria-Café Cadeião e integra a programação da 20ª Primavera dos Museus. Na obra autobiográfica, o autor revisita a cidade a partir das lembranças de quando tinha 10 anos e coloca no centro da narrativa trabalhadores e moradores que, segundo ele, ficaram à margem da história oficial de Londrina.
A ideia do livro nasceu das histórias ouvidas e vividas dentro de casa. Filho de um seleiro e lavrador e de uma dona de casa que também lavava roupas para complementar a renda, Ney cresceu com cinco irmãos. Já no fim da vida dos pais, uma conversa despertou nele a vontade de registrar essa trajetória. “Eles vieram de Minas para plantar café, se deram mal, a geada acabou com tudo. Eles diziam: ‘Nós não demos certo’. E eu fiquei pensando: como não deram certo? Deram certo. Só nunca foram reconhecidos, nunca tiveram nome de rua, nunca receberam homenagem”, conta.

A reflexão se estendeu a outros personagens que fizeram parte da Londrina daquele período. “Foi assim com os carroceiros, charreteiros, padeiros, verdureiros, donas de casa, mulheres que trabalhavam com o café na roça e nas máquinas. Nunca tiveram seu lugar de fala, morreram anônimos. Então pensei: por que não deixar essas pessoas eternizadas, com seus nomes e suas histórias na história?”
Sem recorrer a pesquisas documentais, Ney construiu o livro a partir das próprias lembranças. O ponto de vista é o de uma criança que crescia em uma Londrina sem internet, celular e brinquedos eletrônicos e em que a televisão ainda era privilégio de poucos. “A história da minha família é a mesma de milhares de famílias da periferia e dos bairros de Londrina, que não deram certo no plantio do café e tiveram que se reinventar para sobreviver”, afirma. Para o autor, é justamente essa perspectiva que diferencia a obra de outros registros sobre a cidade. “São histórias vividas dentro da nossa família. Os personagens, os tios, avós, primos, amigos e padrinhos são únicos. Eu não fiz uma pesquisa. É 100% memória.”
Embora 1964 seja um marco da história política brasileira, Ney explica que a escolha do ano não partiu da intenção de escrever sobre o golpe militar. Segundo ele, entre as famílias trabalhadoras retratadas no livro, as preocupações mais imediatas estavam ligadas à sobrevivência. “As famílias queriam comer, morar, arrumar trabalho. As informações chegavam ao interior do Paraná de forma truncada”, recorda.
O ano surge, na verdade, da estrutura narrativa: um homem idoso encontra um menino de 10 anos e decide contar como era sua própria vida quando tinha a mesma idade. É essa viagem ao passado que leva a história até 1964.
O rádio também ocupa lugar importante nas lembranças. Em casa, programas e músicas transmitidos por emissoras como a Rádio Nacional e a Rádio Mayrink Veiga faziam parte do cotidiano. Mais tarde, vieram a Jovem Guarda e os primeiros contatos com a televisão, geralmente na casa de algum vizinho que possuía aparelho.
Entre essas referências aparecem ainda histórias ouvidas na selaria do pai, frequentada por diferentes personagens da cidade. “Iam tropeiros conversar com meu pai, chegavam pessoas para desabafar, e eu ficava ouvindo. A gente tinha histórias incríveis”, lembra Ney.
Ao recuperar essas vozes, “O menino que virava do avesso – Londrina 1964” transforma a memória familiar em um registro de uma Londrina vista a partir dos bairros, do trabalho e das experiências de quem ajudou a construir a cidade longe dos círculos de poder.
Serviço – Lançamento de “O menino que virava do avesso – Londrina 1964”, de Ney Inácio
Data: terça-feira, 22 de setembro de 2026
Hora: das 19h às 21h
Local: Galeria-Café do Sesc Londrina Cadeião Cultural – Rua Sergipe, 52 – Londrina
Entrada: gratuita
Informações: (43) 3572-7700


