Seis mulheres, diferentes gerações e pesquisas musicais e uma pista para ocupar. Neste sábado (3 de outubro), no Barbearia Londrina, recebe “Elas pedem passagem, mas não pedem licença”, encontro que reúne as DJs Obari, Nini Ana, Kansha, Luciana Telles, Dri Selectress e Otte em uma noite de discotecagem conduzida exclusivamente por mulheres. Mais do que formar um line-up feminino, a proposta coloca em evidência artistas e produtoras que vêm construindo espaços, redes e novas possibilidades de atuação na cultura independente local.
A iniciativa retoma uma experiência criada anteriormente pela DJ Dri Selectress. As primeiras edições de “Elas Pedem Passagem” surgiram do desejo de ampliar a presença feminina na discotecagem e, especialmente, na cultura sound system. Agora, ao lado da produtora cultural Raiza Carolina, Dri amplia a proposta e também modifica o nome da festa.

A mudança é simbólica. Se antes era preciso pedir passagem, agora a ideia é ocupar um espaço que também pertence às mulheres. “É muito preciso que a gente não peça licença, que a gente realmente ocupe agora”, afirma Dri. Para ela, embora o número de mulheres atuando como DJs tenha aumentado, isso ainda não aparece na mesma proporção nas contratações e nos line-ups. “Não acho que seja por falta de talento, determinação ou capacidade. Mas homem contrata homem”, observa.
Por isso, reunir seis DJs na mesma noite também funciona como uma vitrine para pesquisas musicais que nem sempre encontram o mesmo espaço na programação cultural. “Não é só estar tocando na pista. É toda essa ideia da divulgação, da ajuda, da contratação de uma para a outra, fortalecendo e valorizando”, explica Dri. “É chegar ocupando.”
Redes que fortalecem a cena

Essa construção coletiva também atravessa a trajetória de Nini Ana, cantora, compositora, seletora, pesquisadora musical e produtora cultural do norte do Paraná. Para ela, a discotecagem oferece uma relação particular com o público porque permite que a seleção musical seja transformada pelo próprio encontro. “Quando é a discotecagem que comanda o meu fluxo criativo, eu tenho um comprometimento maior com o fluxo do momento”, conta. Mesmo quando existe uma pesquisa previamente construída, são os olhares, as reações e os encontros na pista que ajudam a definir os caminhos do set.
Nini também destaca a importância de mulheres pesquisarem, tocarem e divulgarem o trabalho de outras mulheres. Essa prática, segundo ela, ajuda a formar uma rede capaz de aproximar artistas de diferentes gerações e experiências. “Eu tenho muita motivação para trazer sempre mulheres para os meus sets. Pesquisar mulheres, apoiar mulheres, tocar com mulheres e tocar mulheres na pista”, afirma. Para a artista, a cena ganha força quando quem já percorreu parte desse caminho abre espaço para quem está chegando.
“É um encontro das manas que já estão há mais tempo dentro desse movimento acolhendo as pessoas que estão chegando agora”, diz. A perspectiva é construir pontes que permitam circulação, trabalho e novas parcerias. “Sozinhas, às vezes, elas não vão conseguir se movimentar, mas, na hora que a gente chega, a gente pode nos impulsionar.”
Essa rede ajuda a dimensionar uma presença feminina que já atravessa diferentes áreas da cultura de Londrina. São DJs, produtoras, cantoras, pesquisadoras, artistas visuais e trabalhadoras da cultura que não apenas participam dos eventos, mas também criam festas, articulam coletivos, formam públicos e abrem caminhos para outras mulheres.
Da memória musical às novas pistas

As seis artistas convidadas representam também diferentes maneiras de pensar a discotecagem. Luciana Telles leva para a pista uma trajetória de dez anos marcada pelo flashback, soul e black music. Mesmo depois de uma década atrás das pick-ups, ela diz que a relação construída entre música e público continua sendo uma das forças que a mantém em movimento. “Eu ainda entro numa pista sem saber exatamente o que vai acontecer, e é isso que me movimenta. Gosto de observar as pessoas, sentir a energia, entender o que aquela pista está pedindo e construir a noite junto com o público”, afirma.
Para Luciana, discotecar não significa simplesmente encadear músicas, mas criar uma experiência coletiva. “Quando percebo que uma música provoca uma reação coletiva, que pessoas que nem se conhecem estão cantando, dançando e vivendo aquele momento juntas, eu penso: é por isso que continuo fazendo isso.”
Sua pesquisa tem como uma das bases a música negra. Soul, funk, disco e outras vertentes aparecem nos sets ao lado de canções que atravessaram diferentes gerações. “A música negra é uma parte muito importante da minha identidade musical porque carrega história, resistência, criatividade e uma capacidade absurda de transformar sentimento em ritmo”, explica.
Nesse percurso, o flashback não aparece apenas como nostalgia. “Ele é memória afetiva. São músicas que atravessaram gerações e continuam fazendo sentido porque têm personalidade, têm história e continuam vivas.”
Diferentes pesquisas, a mesma pista

A diversidade musical é uma das marcas da noite. DJ Obari, nome artístico da londrinense Bárbara, transita por brasilidades, funk, afrobeat, hip hop, rap e ritmos latinos. Depois de estrear oficialmente na festa Los Batidos, passou por eventos como Baile do PG, Sextech e Baile da Maudita.

DJ Kansha, por sua vez, reúne uma trajetória que passa pela dança, capoeira e congada. DJ desde 2019, integra os coletivos Coffea House, A Língua Preta, House of Ocean e a Comunidade House Dance BR. Sua pesquisa atravessa house, sonoridades afro-diaspóricas e brasileiras, vogue beat, funk e música eletrônica underground, entendendo a pista como espaço de celebração, resistência e liberdade.

Já DJ Otte, artista, DJ e produtora gráfica londrinense que também integra o coletivo Língua Preta, aproxima electro e house, colocando referências do passado em diálogo com produções contemporâneas.
Dri Selectress completa o encontro trazendo sua pesquisa ligada ao reggae e à cultura sound system, que atravessa vertentes do ska ao steppa. Colecionadora de discos de vinil, integrou o Abrakadan Sounds e, posteriormente, criou o Consciência Feminina, iniciativa dedicada a fortalecer a participação de mulheres na cultura sound system no norte do Paraná. Ao lembrar de sua entrada nesse universo, Dri aponta justamente outras mulheres como referências fundamentais. Artistas, pesquisadoras, MCs, seletoras e produtoras que já atuavam na cultura sound system brasileira mostraram que aquele território também poderia ser ocupado por ela.
Em Londrina, no entanto, Dri avalia que a cena ainda é majoritariamente masculina. Mudar esse cenário exige um trabalho contínuo. “É um serviço de formiguinha que a gente vai construindo para abrir portas, dizendo: olha, esse é um espaço em que você também pode entrar.”
A própria visibilidade de mulheres atrás das pick-ups pode produzir novos movimentos. Dri lembra de ocasiões em que, durante seus sets, outras mulheres se aproximaram para cantar, improvisar ou apresentar suas produções. “Quanto mais a gente estiver tocando, produzindo e falando sobre a cultura, mostrando esses materiais e mostrando que as mulheres estão participando, mais isso pode acontecer.”
Para ela, dois caminhos são fundamentais para que essa presença deixe de ser percebida como exceção: “produzir e informar”. É justamente nesse cruzamento entre produção, pesquisa, trabalho e ocupação que “Elas pedem passagem, mas não pedem licença” chega à pista. Em vez de apresentar a presença feminina como novidade, a festa chama atenção para algo que já acontece diariamente na cultura local: mulheres criando projetos, movimentando coletivos, pesquisando música, formando público e sustentando parte importante da cena independente.
Neste sábado, seis dessas trajetórias se encontram no Barbearia. Não para pedir autorização para entrar, mas para mostrar que a pista também é um espaço construído por elas.
No Barbearia, a entrada permanece gratuita, enquanto a “Bandeira 2” acrescenta um valor aos itens do cardápio para ajudar a custear os shows. Contribuições espontâneas também podem ser feitas durante a noite.

SERVIÇO – ELAS PEDEM PASSAGEM, MAS NÃO PEDEM LICENÇA
DJ Obari • DJ Nini Ana • DJ Kansha • DJ Luciana Telles • DJ Dri Selectress • DJ Otte
Data: 03 de outubro (sábado)
Hora: 21h
Local: Barbearia Londrina – R. Benjamin Constant, 1614 – Centro,
Realização: Dri Selectress e Raiza Carolina
Texto por Thiago (Terror) Furini Rosa

