Gingar, cantar, tocar, ouvir histórias e aprender com quem mantém saberes atravessando gerações. É a partir dessas experiências que a Vila Cultural Alma Brasil inicia, nesta terça-feira (6), um novo ciclo gratuito das Oficinas da Alma, em Londrina. Capoeira Contemporânea, Canto Popular e Capoeira Angola abrem a programação, que posteriormente recebe também oficinas de Cinema Popular e Negro e Xilogravura.
Mais do que ensinar técnicas, as atividades propõem encontros com conhecimentos construídos e transmitidos pela cultura popular. Corpo, música, oralidade, memória e convivência aparecem como partes de um mesmo processo de formação. Todas as oficinas são gratuitas e acontecem na sede da Vila Cultural, na Rua Argentina, 693.
A programação começa na terça-feira (6), com duas turmas conduzidas por Dani Pinguim: Capoeira Contemporânea Inclusiva, às 9h, e Capoeira Contemporânea Regular, às 10h.

Ginga, golpes, esquivas e floreios fazem parte das atividades, mas não resumem a experiência. Os participantes também terão contato com instrumentos, canto e musicalidade, buscando compreender a capoeira em suas diferentes dimensões. “A proposta é vivenciar a capoeira como um todo, não só como uma atividade corporal, mas também como uma expressão cultural, musical e coletiva”, explica Dani.
Na turma inclusiva, essa construção ganha ainda outra dimensão. A atividade parte das possibilidades de cada participante e utiliza a capoeira para estimular autonomia, percepção corporal, confiança e convivência.
Para Dani, uma das forças da capoeira está justamente na possibilidade de aprender coletivamente. “A roda, os instrumentos, o canto e o movimento criam oportunidades de interação, troca e participação. Cada pessoa tem o seu jeito e o seu tempo, e é justamente isso que a gente valoriza: essas diferenças.”
A voz como lugar de memória e pertencimento
Na quinta-feira (8), às 17h, a cantora e educadora Isabela Lorena conduz a oficina de Canto Popular. A atividade é aberta tanto para quem já canta quanto para quem nunca participou de aulas ou experiências de formação vocal.
O ponto de partida será um repertório de canções populares afro-brasileiras, trabalhado coletivamente. Técnica vocal e percepção musical entram no processo, mas conectadas às tradições que deram origem às músicas e, principalmente, à experiência do canto em grupo. “A oficina propõe uma experimentação a partir do repertório de canções populares afro-brasileiras. É tanto para quem já tem experiência com o canto quanto para quem nunca cantou ou fez aula, mas se interessa por esse universo”, afirma Isabela.
A proposta também reconhece que cantar uma manifestação popular envolve mais do que reproduzir corretamente notas e melodias. As canções carregam histórias, modos de viver, sotaques e formas próprias de expressão. “O repertório popular é composto por muitas coisas. Uma delas são os diversos modos de vida do nosso Brasil e tradições que são preservadas ao longo do tempo. É um repertório que não exige somente técnica vocal. A gente trabalha muito a expressão, porque cada cultura popular tem a sua”, explica.
Quando essas vozes se encontram, acrescenta Isabela, o canto coletivo também pode produzir reconhecimento. “Dentro do canto em grupo, isso proporciona uma experiência de muito afeto, reconhecimento e pertencimento, sobretudo para as mulheres negras.”
Capoeira Angola: história que permanece no corpo

Também na quinta-feira (8), às 19h, a Contramestra Maré conduz a oficina de Capoeira Angola. A formação coloca em diálogo movimento, musicalidade, oralidade, ritualidade, história e ancestralidade.
Para Maré, compreender a Capoeira Angola passa por reconhecer sua ligação com conhecimentos africanos e afro-diaspóricos e por entender a própria prática como uma fonte de preservação da memória. “A Capoeira Angola é a capoeira mãe, uma matriz que retoma essa ancestralidade cultural africana, afro-diaspórica e afro-indígena dentro de suas tradições e práticas”, explica.
A preservação desses fundamentos também está ligada à resistência à transformação da capoeira exclusivamente em esporte. Embora reconheça a importância histórica do processo de organização e institucionalização da capoeira, Maré chama atenção para conhecimentos que podem desaparecer quando a prática é observada apenas a partir de critérios esportivos. “A Capoeira Angola preserva a memória, a ancestralidade e os aspectos culturais da capoeira, seja nas vestimentas, na forma de tocar o berimbau, de cantar ou de conduzir o próprio movimento. O corpo capoeira, o corpo angola, é uma fonte histórica de conhecimento”, afirma.
É justamente esse conhecimento vivo que deve atravessar os encontros. Os participantes terão contato com movimentos básicos, instrumentos, cantigas, fundamentos da roda, ataque, defesa, negaça e mandinga, além dos aspectos simbólicos da prática.
Não haverá, necessariamente, uma separação rígida entre o momento de estudar história e o momento de movimentar o corpo. Na tradição apresentada por Maré, uma coisa acontece junto da outra. “A história é contada de várias formas. Ela é traduzida em movimento e também nas cantigas da capoeira, que contam e rememoram sua própria história. Ao mesmo tempo que a gente ginga, a gente conversa e realiza essa transmissão do conhecimento”, diz.
A oralidade e a convivência são fundamentais nesse processo. Gestos, músicas e ensinamentos transmitidos de uma geração para outra fazem com que a memória de antigos mestres e mestras continue presente nos corpos de quem pratica hoje.
Para Maré, é essa continuidade que conecta a Capoeira Angola à ancestralidade. Um movimento aprendido, uma cantiga novamente entoada ou uma forma de tocar carregam consigo conhecimentos daqueles que vieram antes. “A gente consegue rememorar movimentos e expressões corporais de pessoas que viveram muito tempo atrás e conseguiram preservar essa corporeidade. A ancestralidade está nisso: respeitar a história de quem veio antes e mantê-la viva”, resume.
Cultura popular como conhecimento vivo
Capoeira, canto, cinema e xilogravura são linguagens diferentes, mas se encontram na proposta das Oficinas da Alma: reconhecer a cultura popular não apenas como manifestação artística a ser apresentada ao público, mas como espaço de produção e transmissão de conhecimento.
Essa perspectiva acompanha a trajetória da Vila Cultural Alma Brasil, que há mais de duas décadas desenvolve em Londrina projetos ligados à cultura e à comunicação popular e comunitária. Oficinas e processos de formação fazem parte desse percurso e aproximam artistas, mestres, coletivos e comunidade.
O novo ciclo terá ainda as oficinas de Cinema Popular e Negro e Xilogravura, cujas inscrições e datas serão anunciadas em breve. O cinema mantém relação com as ações desenvolvidas pelo Cocine – Coletivo de Cinema Negro de Londrina, enquanto a xilogravura já integrou atividades realizadas com o Coletivo Nós da Madeira, responsável por processos de criação que também resultaram na exposição Entalha Entinta, realizada na Galeria Corrimão da Vila Cultural.
Ao colocar esses diferentes conhecimentos lado a lado, as Oficinas da Alma reforçam uma característica fundamental da cultura popular: o saber não permanece parado. Ele circula entre pessoas, transforma-se na experiência coletiva e continua vivo quando encontra novos corpos, vozes e gerações dispostas a compartilhá-lo.

Serviço – Ciclo de Oficinas da Alma
Capoeira Contemporânea Inclusiva
6 de outubro (terça-feira), às 9h
Capoeira Contemporânea Regular
6 de outubro (terça-feira), às 10h
Canto Popular
8 de outubro (quinta-feira), às 17h
Capoeira Angola
8 de outubro (quinta-feira), às 19h
Cinema Popular e Negro
Inscrições e programação em breve
Xilogravura
Inscrições e programação em breve
Local: Vila Cultural Alma Brasil – Rua Argentina, 693, Londrina
Participação: gratuita
Inscrições: pelo formulário disponível nas redes sociais da Vila Cultural Alma Brasil.
O projeto conta com patrocínio do Governo Federal. A Vila Cultural Alma Brasil conta com patrocínio do Promic – Programa Municipal de Incentivo à Cultura.
Texto por Thiago (Terror) Furini Rosa

