Londead Metal Fest celebra 30 anos de death metal com Ancestral Malediction

Ancestral Malediction
Ancestral Malediction

Três décadas de dedicação ao death metal, uma nova geração de músicos londrinenses e a força de uma cena que continua resistindo e se reinventando. É nesse encontro de gerações que acontece a nona edição do Londead Metal Fest, nesta quinta-feira (8), a partir das 20h, no Barbearia Londrina. Pela primeira vez no espaço, o festival recebe a banda paulista Ancestral Malediction, com 30 anos de trajetória no metal extremo, e a londrinense Sulphuratus, representante da nova geração do gênero. A entrada é gratuita.

Principal atração da noite, a Ancestral Malediction chega à Londrina carregando uma história construída na estrada, entre ensaios, gravações, turnês e a persistência de quem escolheu fazer música longe dos grandes circuitos comerciais. Formada em 1995, na cidade de Tremembé, interior de São Paulo, a banda atravessou três décadas mantendo suas raízes no death metal tradicional dos anos 1990.

A trajetória começou a ganhar seus primeiros registros com as demos No Mercy (1998) e Ancients Contradictions (1999). Em 2001, veio o álbum de estreia, Demoniac Holocaust. Desde então, o grupo percorreu diferentes regiões do Brasil, realizou turnês pela Bolívia e pelo México e dividiu o palco com referências internacionais do metal extremo, como Morbid Angel, Deicide e Sinister.

Em 2024, a banda voltou à estrada para uma sequência de 15 apresentações pelo Nordeste brasileiro. No ano seguinte, celebrou seus 30 anos com o lançamento do quarto álbum de estúdio, Destructive Dissonance, trabalho que marca uma nova fase de sua discografia.

Para o baterista e vocalista Ronaldo William, um dos integrantes originais, permanecer ativo durante tanto tempo exige mais do que disposição para tocar. É preciso acreditar na música e continuar trabalhando por ela, mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelas bandas independentes. “A gente continua naquela luta pelo velho underground, fazendo a própria divulgação, correndo atrás dos shows, fechando datas com parceiros e fazendo trocas de apresentações. Vimos muitas bandas nascerem, muitas terminarem, pessoas entrarem e saírem da cena. Mas sempre tivemos o propósito de seguir em frente enquanto pudermos fazer aquilo de que gostamos”, conta.

Ronaldo reconhece que muita coisa mudou ao longo dessas três décadas. A internet facilitou a divulgação e ampliou o alcance das bandas, mas os desafios financeiros e a falta de estrutura continuam fazendo parte da realidade do metal independente brasileiro. “O que continua mantendo a gente na estrada depois de 30 anos é a nossa própria energia e o amor pelo metal. Isso vem em primeiro lugar. É um amor incondicional, que não deixa você abaixar a cabeça e faz seguir adiante”, afirma.

Atualmente, a Ancestral Malediction é formada por Eduardo Claro (guitarra e vocal), Ronaldo William (bateria e vocal) e Fernanda Lessa (baixo). A identidade musical do grupo permanece ligada à brutalidade e à sonoridade do death metal dos anos 1990, mas incorpora a experiência acumulada em diferentes fases da carreira.

Segundo Ronaldo, o novo disco representa um avanço especialmente na qualidade da gravação, sem abandonar as características que acompanham a banda desde o início. “Cada CD teve sua fase, sua música importante, sua essência, brutalidade e ideologia. Mas hoje conseguimos uma gravação melhor, em que a pessoa consegue colocar um fone e ouvir a bateria, a voz, a guitarra e o contrabaixo com mais clareza. Acho que é um dos melhores trabalhos da banda nesse sentido”, explica.

O músico também destaca a importância das experiências internacionais para a formação do grupo. Dividir o palco com bandas de outros países permitiu conhecer diferentes estruturas de produção e reforçou a percepção de que, no Brasil, o underground depende principalmente do esforço coletivo de músicos, produtores e organizadores. “O underground acontece com a força de cada produtor que sua para fazer as coisas acontecerem. Muitos produtores também têm bandas e sabem das dificuldades. Tudo é muito caro, mas seguimos construindo nossa própria identidade”, observa.

Para a apresentação em Londrina, o repertório deve aproximar diferentes momentos da carreira e apresentar ao público a sonoridade de Destructive Dissonance.

Sulphuratus representa a nova geração do metal londrinense

Sulphuratus
Sulphuratus

A noite também abre espaço para a produção musical de Londrina. Formada em 2022, a Sulphuratus será responsável pela abertura do festival, levando ao palco uma sonoridade que mistura metal sinfônico com influências de black metal, death metal e progressivo.

O quinteto prepara o álbum Futuro Ancestral, trabalho que pretende reunir as diferentes ideias musicais e temáticas desenvolvidas pela banda nos últimos anos.

Para Bruno Esser, responsável pelo vocal gutural, guitarra e teclados, o momento é positivo para o metal londrinense. Ele observa um crescimento na realização de eventos e na articulação entre produtores, bandas locais e grupos de outras regiões. “Londrina tem sido bem promissora nos últimos tempos, com bastante gente produzindo eventos. O Londead é um festival movimentado, que abre espaço tanto para bandas locais quanto para grupos de outros estados. Isso ajuda a fomentar a cena e criar conexões com músicos de fora”, avalia.

A apresentação desta quinta-feira também marca um momento importante para a Sulphuratus. Embora o novo álbum ainda não seja lançado durante o festival, a banda pretende anunciar oficialmente o início dos lançamentos e preparar o público para a turnê de divulgação do trabalho, que começará em Londrina. “A gente está bastante animado porque será a primeira vez que vamos fazer uma turnê com um propósito maior, ligada ao lançamento de um álbum. Com esse material, conseguimos amarrar melhor as ideias das letras, as artes e as nossas temáticas. Agora tudo isso vai estar registrado e distribuído”, explica Bruno.

Uma cena que se mantém viva pela força coletiva

A realização da nona edição do Londead Metal Fest também chama atenção para a continuidade da cena de rock e metal de Londrina. Construída ao longo de décadas por bandas, produtores, casas de shows e um público fiel, essa movimentação encontra nos festivais independentes uma oportunidade de circulação e renovação.

O Londead faz parte desse movimento ao aproximar músicos de diferentes gerações e regiões, criando oportunidades para bandas locais dividirem o palco com grupos que já possuem uma trajetória consolidada no underground nacional.

A programação vai além das apresentações musicais. O festival também contará com feira independente, exposições e venda de materiais das bandas, ampliando o espaço para outras expressões artísticas e iniciativas ligadas à cultura underground.

A estreia do festival no Barbearia Londrina reforça essa rede de colaboração. Conhecido por abrir espaço para diferentes manifestações da cultura independente, o bar recebe uma programação que valoriza tanto a história do metal extremo quanto sua produção atual.

Bandeira 2: entrada gratuita e valorização dos músicos

Uma das iniciativas que marcam a realização do festival é a Bandeira 2, ação adotada pelo Barbearia Londrina para contribuir com a remuneração dos artistas sem cobrar ingresso do público.

O funcionamento é simples: durante o evento, os produtos consumidos no bar recebem um pequeno acréscimo no preço, destinado a apoiar financeiramente as bandas que se apresentam.

A proposta enfrenta uma questão recorrente na produção cultural independente: como garantir o acesso gratuito aos eventos e, ao mesmo tempo, reconhecer o trabalho dos músicos?

Com a Bandeira 2, o Barbearia propõe uma forma coletiva de apoio à música ao vivo. Quem frequenta a casa e consome durante a programação também participa da manutenção das apresentações e da circulação dos artistas.

A iniciativa ganha importância em um cenário no qual muitas bandas precisam financiar suas próprias gravações, deslocamentos, equipamentos e divulgação. Para grupos que vivem a realidade do underground, ações como essa ajudam a tornar possível a continuidade dos shows.

Ao reunir uma banda com três décadas de história e outra que começa a construir sua trajetória, o Londead Metal Fest mostra que a cena metal de Londrina segue encontrando caminhos para permanecer ativa. Uma história feita de guitarras pesadas, produção independente, parcerias e, principalmente, gente que continua acreditando na música.

SERVIÇO — Londead Metal Fest #9

Atrações: Ancestral Malediction (SP) e Sulphuratus (Londrina)

Data: quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Horário: 20h

Local: Barbearia Londrina — Rua Benjamin Constant, 1614

Entrada: gratuita

Bandeira 2: pequeno acréscimo nos produtos consumidos no bar, destinado ao apoio financeiro das bandas.

Texto por Thiago (Terror) Furini Rosa

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