A força do afrobeat, os ritmos da música negra e a energia da música instrumental vão tomar conta do Bar Barbearia nesta sexta-feira (16), em Londrina. A partir das 21h, a casa recebe a quinta edição do Fela Day, celebração dedicada ao músico e ativista nigeriano Fela Kuti, considerado o pai do afrobeat. Com entrada gratuita, a noite terá show da banda curitibana Urucum, que mistura jazz, funk, afrobeat e ritmos afro-brasileiros, além da discotecagem de Janaína Ávila e Thiago Mutulu.
Realizado há cinco anos no Barbearia, o Fela Day integra um movimento internacional de celebração da obra de Fela Anikulapo Kuti, artista que transformou a música em ferramenta de expressão política, resistência e denúncia das desigualdades sociais. Em Londrina, a homenagem ganhou identidade própria, aproximando o público da riqueza musical africana e de artistas brasileiros que dialogam com essa herança.
Idealizador do Fela Day na cidade, Junior Carvalho destaca que a proposta vai além da celebração musical. Para ele, conhecer a trajetória de Fela Kuti também significa compreender a relação entre cultura, participação popular e transformação social. “É importante essa galera mais nova que está indo nas manifestações e se juntando para um país melhor conhecer, além das músicas do Fela Kuti, toda a história política dele. Não é só uma homenagem e um evento musical. Toda a história política dele precisa ser mais conhecida e mais divulgada, ainda mais agora nas vésperas das eleições. Mais do que nunca, Fela Kuti precisa ser ouvido no Brasil”, afirma.
Urucum aproxima a música instrumental da pista de dança

A principal atração da noite, a Urucum, chega de Curitiba com uma proposta que desafia a ideia de que música instrumental é feita apenas para ser apreciada em silêncio. Criada em 2016, a banda desenvolve um trabalho autoral que combina pesquisa musical, improvisação e uma diversidade de referências sonoras, sempre com o ritmo e a dança como elementos centrais.
Com influências de artistas e grupos como Hermeto Pascoal, Bixiga 70, Snarky Puppy e Irakere, a Urucum apresenta composições do álbum Virajá, explorando encontros entre jazz, afrobeat, funk, música brasileira e sonoridades de diferentes partes do mundo.
O músico Jimmy Reuter, responsável pela guitarra, teclados e direção musical do grupo, explica que a identidade da banda nasce justamente dessa troca de experiências entre seus integrantes. “A Urucum é uma mistura de vários ritmos. Entre eles, ritmos afro-brasileiros, da música tradicional brasileira, ritmos do afrobeat, que vem lá da Nigéria, músicas da Etiópia e ritmos da world music. Somos um grupo com muitos músicos, então todos têm o seu universo de pesquisa, que é muito amplo. Isso se mistura na hora das composições, dos arranjos e dos shows”, explica.
Segundo Reuter, a proposta é transformar essa diversidade em uma experiência coletiva, capaz de envolver tanto quem acompanha a música instrumental quanto quem simplesmente quer dançar. “São repertórios, shows e composições que a gente faz que sempre são muito envolventes, fazem a galera dançar, curtir, se envolver no espetáculo. Não é aquela coisa superteatral em que a pessoa fica sentada assistindo, que às vezes é muito característica da música instrumental. É um show mais envolvente”, destaca.
Essa conexão com o público também está presente na maneira como a Urucum trabalha seus arranjos. Em vez de colocar o virtuosismo individual no centro das apresentações, a banda procura valorizar o diálogo entre os instrumentos e a construção de uma sonoridade coletiva.
Para Jimmy, essa abordagem representa um caminho importante para ampliar o alcance da música instrumental brasileira, que ainda enfrenta barreiras para conquistar determinados públicos. “No Brasil, ainda há uma barreira muito grande com a música instrumental. Se você pega um violão numa roda de amigos, certamente alguém vai pedir para você cantar alguma música, porque as pessoas já têm essa expectativa da música cantada. Quando é uma música instrumental, é uma coisa meio estranha para alguns. Então, temos tentado quebrar essa barreira. A gente acredita que a música instrumental pode ser muito mais popular”, observa.
O músico ressalta que a banda procura estabelecer essa aproximação por meio da dança, de linguagens contemporâneas e da própria energia das apresentações. “A ideia não é mostrar o quanto os músicos sabem tocar individualmente. A gente se preocupa sempre com o que está acontecendo entre o grupo, para que não seja um exibicionismo gratuito. Temos esse cuidado de transmitir mais a experiência do que a técnica virtuosa”, explica.
Barbearia fortalece a cena independente de Londrina
A realização do Fela Day também evidencia o papel do Bar Barbearia como espaço de circulação da música independente em Londrina. Ao abrir seu palco para artistas autorais, diferentes linguagens musicais e propostas que nem sempre encontram espaço nos circuitos comerciais, a casa contribui para a diversidade da programação cultural da cidade.
Para a Urucum, que já se apresentou no local, retornar ao Barbearia representa a oportunidade de fortalecer essa conexão entre músicos, produtores e público. “A gente é muito fã do Barbearia. Já tocamos e foi uma noite muito legal. Estamos ansiosos para voltar. É superimportante ter espaços como esse. Londrina é uma cidade supercultural, e poder fazer parte dessa interação com o público, fomentando a música instrumental e o nosso trabalho, é sempre muito gratificante”, afirma Jimmy.
Além do show, a programação terá discotecagem da jornalista Janaína Ávila, produtora e apresentadora do programa Mundo Sonoro, da Rádio UEL FM, e do músico Thiago Mutulu. A dupla participa do Fela Day desde sua primeira edição, ajudando a construir a identidade musical da celebração.
A continuidade do evento ao longo de cinco edições também demonstra a importância de iniciativas independentes que mantêm viva a produção cultural da cidade. Ao reunir música instrumental, referências afro-diaspóricas e reflexão política em uma programação gratuita, o Fela Day amplia as possibilidades de encontro entre artistas e público, fortalecendo uma cena musical que se constrói pela colaboração e pela ocupação dos espaços culturais.
Bandeira Dois valoriza o trabalho dos artistas
Um dos diferenciais do Barbearia é a proposta de manter a programação musical acessível, sem cobrança de ingresso. Para ajudar a sustentar esse modelo, a casa desenvolve o Bandeira Dois, iniciativa que convida o público a participar diretamente da valorização dos músicos. O funcionamento é simples: a cada item consumido, o cliente paga R$ 1 a mais, valor destinado a contribuir com a remuneração dos artistas. Também é possível colaborar por meio de doações voluntárias.
A proposta reforça a ideia de que a entrada gratuita não significa que a música não tenha custos. Pelo contrário, é uma maneira de compartilhar com o público a responsabilidade de manter os palcos independentes ativos e garantir condições para que os artistas continuem apresentando seus trabalhos.
Nesta sexta-feira, o Fela Day reúne esses elementos em uma noite que celebra a liberdade criativa da música instrumental, a força da cultura negra e o legado de um artista que fez da música uma forma de resistência.

SERVIÇO – Fela Day em Londrina
Show com a Banda Urucum (Curitiba)
Data: 16 de outubro (sexta-feira)
Local: Bar Barbearia – Rua Benjamin Constant, 1614, Londrina
Entrada: Gratuita – Com “Bandeira Dois” (R$ 1,00 a mais nos itens do cardápio do bar)

