O hardcore da zona leste de São Paulo encontra a irreverência do punk londrinense neste domingo (18 de outubro), quando o Barbearia Bar recebe, pela primeira vez na cidade, a banda Sujera (SP). A apresentação faz parte de uma edição especial da Domingueira do BRBA, que terá abertura da banda local Catïça. Produzido de forma independente pelo próprio bar, o evento fortalece a circulação da música autoral e reafirma a importância dos espaços culturais que mantêm viva a cena underground de Londrina.
Formado em 2020, na zona leste de São Paulo, o Sujera chega a Londrina com uma sonoridade que mistura o peso do hardcore e do metal às batidas e à linguagem do rap. Guitarras pesadas, grooves marcantes e vocais compartilhados fazem parte da identidade de uma banda que encontrou na cultura de rua e nas experiências da periferia a matéria-prima para suas composições.
O grupo surgiu por iniciativa do baterista Thiago Rosa e do então vocalista Gustavo Moretti. Entre os trabalhos que ajudaram a projetar seu nome está uma releitura de “Negro Drama”, clássico dos Racionais MC’s, que ganhou repercussão nas redes sociais e aproximou o Sujera do público ligado ao rap nacional.
Para o vocalista Marcel Serra, a mistura de estilos vai além das referências musicais. Ela está diretamente relacionada às experiências de quem cresceu em meio à cultura urbana dos anos 1990 e 2000. “A identidade vem da mistura das referências de tudo que vivemos nos anos 90/2000: música, cultura de rua, vestimenta, vivência na quebrada mesmo”, conta Marcel.
Segundo ele, a origem periférica dos integrantes também ajudou a construir a maneira como a banda se expressa. “Cantar sobre o que viveu, vive, sobre o que se acredita, o rap ensina isso. Somando as vivências, essa essência da verdade nas ideias de cantar o que vive e viver o que canta, somada às influências musicais, do peso, do groove, resultam nisso que somos.”
Depois de passar por mudanças na formação no final de 2024, o Sujera lançou, em 2025, o trabalho EAST SIDE BOMBA, ainda gravado com os integrantes anteriores. O disco reforçou a combinação entre a agressividade do hardcore e as influências do hip-hop. Em 2026, já com uma nova formação, a banda apresentou o single 2000&Caos, abrindo caminho para uma nova etapa de sua trajetória.
A estreia em Londrina também representa mais uma oportunidade de fortalecer os laços entre artistas e produtores que trabalham fora dos grandes circuitos comerciais. “O Brasil é um país continental, tem muito lugar pra levar a mensagem ainda e é muito foda encontrar os nossos de igual em outras cidades, outros estados, que são suporte pra outras bandas que também tão no corre, como nós”, afirma Marcel.
O vocalista destaca que a circulação pelo circuito independente proporciona encontros que vão muito além dos shows. São experiências compartilhadas nos bastidores, trocas de ideias e conexões que ajudam a manter o movimento em atividade. “Percorrer esse trecho, estar neste circuito traz trocas e vivências de mil grau, cada pessoa é um universo com suas lutas e glórias pessoais, sempre dá pra absorver algo nas trocas de ideia, de backstage”, observa.
Para o primeiro encontro com o público londrinense, a expectativa é de uma apresentação intensa. “Esperamos fazer uma festa bonita, um show foda, pesado, enérgico, pra poder voltar em breve!”
Catïça leva a identidade londrinense ao palco

Responsável pela abertura da noite, a Catïça representa uma vertente da música autoral de Londrina que combina a velocidade do punk, a agressividade do metal e letras atravessadas pelo humor ácido, pela crítica social e pelas experiências cotidianas da cidade.
Com riffs acelerados, músicas curtas e vocais rasgadas, a banda construiu uma identidade que não esconde suas raízes no interior do Paraná. Pelo contrário: faz questão de levá-las para os palcos.
Para Nobu, vocalista da Catïça, a relação com Londrina é inseparável da proposta artística do grupo. “As nossas características estão cem por cento conectadas com a cidade de Londrina. A gente acaba levando o nome de Londrina por falar de Londrina, por falar da experiência que a gente vive aqui, que é uma vivência compartilhada com todo mundo que a gente encontra na rua”, explica.
Essa ligação também aparece nas referências que ajudaram a formar a identidade musical da banda. Nobu cita dois nomes fundamentais da produção underground londrinense: Paulo Barnabé, associado à irreverência do punk, e a banda de metal Subtera. “Tem duas bandas que são referências de vida pra mim e pra banda, que são o Paulo Barnabé e o Subtera. O Patife do punk e o Subtera do metal. A gente fica muito feliz de poder dar alguma espécie de seguimento para esse estilo na cidade de Londrina”, afirma.
Para o músico, carregar essa herança é também uma forma de reconhecer a história cultural da cidade e contribuir para sua continuidade. “É um orgulho enorme poder carregar essa identidade do interior do Paraná, do londrinense, para outras cidades.”
Barbearia fortalece a produção independente e a circulação de bandas
A apresentação deste domingo também evidencia o papel do Barbearia Bar na construção de uma rede independente de música em Londrina. Ao produzir suas próprias noites e apostar em bandas autorais de diferentes regiões do país, o espaço contribui para aproximar artistas, produtores e públicos que compartilham o interesse pela cultura underground.
A Domingueira do BRBA se tornou parte dessa movimentação, oferecendo palco para grupos locais e recebendo artistas que percorrem o Brasil por meio de uma rede de casas de shows, coletivos e produtores independentes.
Para Nobu, a sobrevivência dessa cena depende de uma relação construída coletivamente. “A importância pra mim é dividida em três braços: o artista, a casa e o público. Se não tiver um desses, a cena não acontece”, resume.
O vocalista destaca especialmente o trabalho de Juninho, responsável pelo Barbearia, e sua contribuição para a circulação da música independente. “A importância do Juninho e do Barbearia, não só pra Londrina, mas pra cena geral da música, é tão importante quanto o artista e tão importante quanto quem está lá pra prestigiar”, afirma.
Nobu também ressalta a história do espaço, que recebe bandas de diferentes regiões e integra uma rede de circulação da música underground que ultrapassa as fronteiras de Londrina. “É o nosso bar preferido de Londrina. Não só pelo bar em si, mas pela história que ele carrega, pelo respeito que a gente tem por ele e pelo Juninho, pelo que ele fez e faz pela cena da música”, destaca.
Para a Catïça, dividir o palco com o Sujera é mais uma oportunidade de fortalecer essas conexões. Nobu conta que já acompanhava o trabalho dos paulistas e considera o encontro uma experiência especial. “O Sujera é uma das bandas mais legais do nu metal nacional. Tudo muito bem feito e com muito capricho, som de muita qualidade. Eu particularmente tô muito ansioso pra ver o show deles. Pra gente é uma honra e uma alegria.”
Mais do que reunir duas bandas de sonoridades intensas, a Domingueira deste domingo mostra como a música independente continua encontrando caminhos para circular. Entre o hardcore paulista e o punk londrinense, o Barbearia reafirma seu papel como ponto de encontro de uma cena que se mantém ativa graças ao trabalho conjunto de músicos, produtores, casas de shows e público.

SERVIÇO – Domingueira do BRBA Especial – Sujera (SP) e Catïça (Londrina)
Data: Domingo, 18 de outubro de 2026
Hora: Abertura da casa às 18h; shows a partir das 20h
Local: Barbearia Bar – Rua Benjamin Constant, 1614, Centro, Londrina
Ingressos: Promocionais limitados pela Sympla ou entradas físicas, sem taxa de serviço, no Barbearia e na Mi Casa Barbearia e Bar.

