A força das lendas brasileiras e sua capacidade de transmitir conhecimentos sobre a natureza, a cultura e a história ganham as telas neste sábado (15), em Londrina. A animação “A Mãe da Mata”, adaptação audiovisual do livro de Chico Santos e Maicksson Serrão, será apresentada das 10h30 às 12h, no Sesc Londrina Cadeião, dentro da programação da 45ª Semana Literária Sesc & Feira do Livro. Com entrada gratuita, a atividade terá a exibição do curta seguida de uma roda de conversa com os autores e Suellen Estanislau.
Produzida a partir de desenhos e pinturas feitos à mão, a animação coloca a Curupira como protagonista e guardiã da floresta. Em vez de aparecer apenas como uma personagem observada por quem conta a história, ela assume a própria voz e apresenta sua perspectiva sobre a mata e sobre aqueles que vivem ou entram nela.
Para Chico Santos, a escolha está relacionada a uma pesquisa sobre as lendas e suas conexões com a história dos lugares. O trabalho encontrou afinidade com as pesquisas desenvolvidas por Maicksson Serrão na Amazônia, em contato com comunidades e com a tradição oral.
Ao escrever a história, Santos decidiu inverter a perspectiva tradicional das narrativas sobre a personagem. “Eu pensei: e se ela pudesse contar a sua própria história? E como ela contaria isso? Ela pode ser o que ela quer, então pode ter vários pensamentos”, explica. Para o autor, essa liberdade permitiu construir uma Curupira de “várias personalidades, várias vozes”, distante de uma representação simplificada entre o bem e o mal.
Lendas que ajudam a compreender a floresta

“A Mãe da Mata” também chama atenção para a importância de preservar e difundir o imaginário popular brasileiro, especialmente histórias que permanecem vivas por meio da oralidade nas comunidades amazônicas. Para Chico Santos, essas narrativas apresentam personagens mais complexos do que muitas das versões do folclore que se popularizaram em outras regiões do país.
Segundo o autor, as lendas amazônicas carregam uma dimensão espiritual e estão profundamente ligadas à maneira como as comunidades se relacionam com o território. “Elas são mais místicas e são como entidades mesmo. Elas são respeitadas. Antes de entrar na mata, você pede licença para a Curupira”, afirma.
Essa relação também faz com que a personagem não seja apresentada simplesmente como heroína ou vilã. “Elas podem fazer bem como mal, então são até mais humanas. Estão mais próximas da gente dessa forma”, acrescenta Santos.
Ao recuperar essa dimensão da Curupira, a obra reforça um aspecto fundamental das lendas brasileiras: elas não servem apenas para entreter ou provocar medo. São narrativas construídas e transmitidas ao longo de gerações que carregam conhecimentos, valores e diferentes formas de compreender a relação entre seres humanos e natureza.
No caso da Curupira, essa ligação é especialmente evidente. Guardiã das matas no imaginário popular, a personagem atravessa gerações como símbolo da proteção da floresta e das consequências enfrentadas por quem desrespeita seus limites. Em um momento marcado pelas discussões sobre preservação ambiental, mudanças climáticas e proteção dos biomas brasileiros, revisitar essas histórias também permite aproximar tradição e questões contemporâneas.
Histórias brasileiras para novas gerações

A vontade de apresentar esse universo às crianças foi uma das motivações de Chico Santos para transformar a pesquisa em livro e, posteriormente, em animação. Pai de uma criança de três anos, o autor conta que percebeu nas histórias preservadas pela tradição oral um repertório que gostaria que chegasse também ao filho e a outras crianças. “Eu escutava essas histórias orais, muito conhecidas no Norte, e pensava que seriam histórias legais para o meu filho escutar e que poderiam ser mais difundidas”, conta.
Para Santos, ampliar o contato das novas gerações com essas narrativas também significa oferecer referências culturais brasileiras em meio à presença predominante de personagens e universos produzidos pela indústria internacional do entretenimento. “Eu quis que as crianças que estão vindo tenham acesso a isso, que não tenham só Disney e histórias comerciais. Que tenham histórias regionais e que tenham a ver com o seu ambiente, com a história do próprio país”, destaca.
A proposta de “A Mãe da Mata”, dessa maneira, vai além do resgate de uma personagem do folclore. Ao apresentar a Curupira a partir de uma perspectiva ligada às tradições amazônicas, o projeto ajuda a manter vivas narrativas brasileiras e a estimular nas crianças o reconhecimento da própria cultura.
A passagem do livro para o audiovisual amplia esse alcance ao reunir literatura, artes visuais, animação e educação ambiental. Depois da exibição, Chico Santos, Maicksson Serrão e Suellen Estanislau conversam com o público sobre a criação da obra e o processo de adaptação para o curta.
A atividade integra a 45ª Semana Literária Sesc & Feira do Livro, realizada entre os dias 12 e 16 de agosto. Criado em 1981, o evento promove há mais de quatro décadas o encontro entre leitores, escritores e artistas. Em 2026, a programação acontece simultaneamente em 27 cidades do Paraná, com bate-papos, lançamentos, contações de histórias, oficinas, apresentações artísticas e feira de livros.
Em Londrina, as atividades são realizadas no Sesc Cadeião, espaço cultural localizado na região central da cidade.

SERIÇO:
“A Mãe da Mata” – exibição de animação e roda de conversa
Data: sábado, 15 de agosto
Horário: 10h30 às 12h
Local: Sesc Londrina Cadeião – Rua Sergipe, 52, Centro, Londrina
Participação: Chico Santos, Maicksson Serrão e Suellen Estanislau
Entrada: gratuita
Programação: 45ª Semana Literária Sesc & Feira do Livro


