O cantor e compositor Bernardo Pellegrini retorna aos palcos de Londrina neste sábado (17), às 21h, com o espetáculo No Coração do Tempo, no Teatro da Associação Médica de Londrina (AML). Ao lado de Eduardo Batistella e Alessandro Franco, o artista revisita mais de três décadas de história do Bando do Cão Sem Dono, grupo que ajudou a construir uma identidade para a música autoral produzida na cidade. O repertório reúne canções de diferentes fases da carreira, parcerias com poetas e compositores e cinco músicas inéditas que estarão no próximo álbum.
A apresentação também é um encontro entre gerações. Bernardo Pellegrini (voz e violão) e Eduardo Batistella (bateria) mantêm uma parceria musical que atravessa mais de 30 anos. A eles se junta o contrabaixista e arranjador Alessandro Franco, conhecido como Prog, representante de uma nova geração de músicos que passou a integrar o universo do Bando.
A trajetória de Bernardo na música começou muito antes da formação do grupo. Nos anos 1970, o artista já participava da cena cultural londrinense, compondo trilhas para teatro e apresentando seus primeiros espetáculos. Em 1976, realizou o show Mina D’Água. Depois de uma temporada em São Paulo, onde também trabalhou como jornalista, lançou seu primeiro álbum, Humano Demais, em 1990.
Foi com Dinamite Pura, lançado em 1994, que nasceu o Bando do Cão Sem Dono. O disco, considerado um marco da produção musical independente de Londrina, reuniu dezenas de músicos em um trabalho que misturava canção brasileira, rock, blues, jazz e poesia. O álbum também ficou marcado como o primeiro CD lançado na cidade e ganhou uma edição comemorativa em vinil em 2024.
Bernardo lembra que aquele primeiro trabalho nasceu de um momento de intensa produção musical em Londrina, quando artistas de diferentes formações buscavam criar uma sonoridade própria. “Ele nasce como um coletivo, são quase 40 músicos de Londrina gravando o primeiro compact disc. Era uma tecnologia nova na época. Eu gravei 28 músicas, a gente conseguiu colocar 14 ou 16 no primeiro disco. Agora, 30 anos depois, relancei em vinil com seis músicas inéditas”, conta.
Para o compositor, Dinamite Pura ajudou a dar visibilidade a uma produção musical que já tinha personalidade e vinha sendo construída coletivamente. “A gente já tinha uma cara, tem uma cara, tem uma personalidade. E, de certa forma, o Dinamite Pura, nosso primeiro trabalho com o Bando, sedimentou, solidificou, deu expressão para isso, que era basicamente pesquisa musical.”
A formação inicial reunia diferentes guitarristas, baixistas e bateristas, cada um contribuindo com suas referências. Com o passar dos anos, o Bando foi diminuindo de tamanho, tanto por questões práticas quanto pelas mudanças naturais de um grupo independente.
Uma das experiências que marcaram essa transformação aconteceu em São Paulo, quando Bernardo, Eduardo Batistella e Marco Scolari passaram a morar juntos e participaram do projeto Arte na Rua, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura. Foram mais de 25 apresentações em espaços públicos da capital paulista, muitas delas realizadas durante o horário de almoço dos trabalhadores. “A gente parava ao meio-dia e fazia show até uma e meia da tarde em locais de concentração de trabalhadores. Isso deu pra gente uma experiência muito gostosa de tocar ao vivo e a gente levou isso nos discos seguintes”, recorda.
A vivência nos palcos também influenciou a maneira de gravar. Segundo Bernardo, Quero Seu Endereço, lançado em 1998, foi registrado em aproximadamente uma semana, depois de quase um ano de apresentações em que as músicas foram sendo experimentadas diante do público.
O álbum consolidou uma linguagem que transitava entre o blues, o jazz, o samba, o baião e outras vertentes da música brasileira, sempre com atenção especial às letras. O trabalho foi lançado pela gravadora Dabliú e contou com parcerias de nomes importantes da produção literária de Londrina.
Da música independente à política cultural
A trajetória de Bernardo Pellegrini também está ligada à construção das políticas culturais de Londrina. Além de compositor, cantor e jornalista, o artista atuou como produtor cultural e ocupou o cargo de secretário municipal de Cultura.
Durante esse período, afastou-se parcialmente dos palcos para se dedicar à gestão pública. A experiência interrompeu a rotina de apresentações, mas não o processo de composição.
O retorno à atividade musical ganhou força com o álbum É Isso Que Vai Acontecer, de 2010, seguido por Outros Planos, lançado em 2018. Este último reuniu antigos parceiros e uma nova geração de instrumentistas, mantendo a proposta coletiva que acompanha o Bando desde sua criação.
Ao olhar para essas diferentes fases, Bernardo considera que a permanência do grupo está diretamente relacionada à liberdade de criação e à capacidade de incorporar novas contribuições. “A gente passou por diversas fases e o que une, o que conecta é realmente o trabalho de criação das canções. É um trabalho de música independente”, afirma.
Para ele, a circulação da produção musical pela internet também abriu novas possibilidades para que o repertório continuasse chegando ao público. “A gente ganhou uma sobrevida com essa migração da canção, do disco, para as redes sociais”, observa. Atualmente, sua produção está reunida no site oficial de Bernardo Pellegrini, com discos, registros de apresentações, vídeos, fotografias e textos sobre sua trajetória.
A poesia que acompanha o Bando
Uma das características do trabalho de Bernardo Pellegrini é a relação entre música e literatura. Ao longo da carreira, o compositor estabeleceu parcerias com escritores e poetas como Maurício Arruda Mendonça, Mário Bortolotto e Rodrigo Garcia Lopes.
Esses encontros ajudaram a construir um repertório que fala de relações humanas, cotidiano, comportamento e das contradições da vida urbana. “Acho que a gente em Londrina conseguiu dar uma personalidade única para as letras das canções. Porque eu trabalho com alguns dos poetas que eu mais considero, que são meus poetas preferidos”, explica.
No espetáculo No Coração do Tempo, essa história aparece em músicas como Olha, Se Eu Chorar Eu Morro, Dei um Beijo na Boca do Medo e Gilete, que atravessaram diferentes momentos da carreira do grupo.
Algumas dessas composições também ganharam novos caminhos nas vozes de outros intérpretes. Dei um Beijo na Boca do Medo, por exemplo, foi gravada por Simone Mazzer no álbum Férias em Videotape, de 2015, e utilizada como tema de abertura da série Me Chama de Bruna. Já Essa Mulher, outra composição de Bernardo, foi interpretada por Simone Mazzer e Elza Soares.
Para Bernardo, a força dessa produção está na maneira como a canção se relaciona com a literatura e com a realidade. “É uma música feita no Paraná, autêntica, independente e que dura. Não é uma música de ocasião, é uma música que trata a canção como uma linguagem de exploração do mundo, da vida, das relações.”
O passado encontra as novas canções
Embora revisite uma trajetória de mais de três décadas, No Coração do Tempo também apresenta o que Bernardo e o Bando estão produzindo atualmente. O show terá cinco músicas inéditas, parte de um repertório que está sendo preparado para o próximo álbum do grupo. A previsão é reunir dez novas composições, algumas delas desenvolvidas em parceria com escritores que acompanham a carreira do artista.
Entre as novidades estão trabalhos com Maurício Arruda Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes, mantendo a ligação entre música e poesia que caracteriza a produção do Bando. “São cinco inéditas no espetáculo e outras cinco que a gente está ensaiando para gravar no estúdio. O próximo trabalho deve ter dez canções inéditas”, adianta Bernardo.
A apresentação na AML também será registrada em vídeo, com a participação de João Vidotti na produção audiovisual. A intenção é transformar o material em um novo registro da trajetória do grupo, que já possui gravações de apresentações em espaços como o Teatro Ouro Verde e o Teatro Zaqueu de Mello. “Esse show de sábado vai estar sendo filmado também pelo João Vidotti. Vai ser registrado em vídeo e talvez se transforme em um novo produto, um disco ao vivo na Associação Médica”, conta.
A formação reduzida é outra característica dessa apresentação. Bernardo e Eduardo Batistella, parceiros desde os primeiros anos do Bando, dividem o palco com Alessandro Franco, músico que representa a renovação do coletivo. “Com essa formação enxuta, eu, o Edu, que já estamos há mais de 30 anos trabalhando juntos, e o Prog, o Alessandro Franco, que é um baixista refinadíssimo dessa nova geração. A gente sempre cruzando, sempre recriando. Sempre tem uma marca, um som, mas ele vai se transformando conforme vai recebendo a colaboração de novos músicos, de novos letristas.”
Entre as lembranças dos primeiros shows, os discos gravados e as composições que ainda estão por vir, No Coração do Tempo mostra que o Bando do Cão Sem Dono continua em atividade. Para Bernardo Pellegrini, a passagem dos anos não encerra uma história musical. Ela acrescenta novas experiências a um trabalho que permanece ligado à criação coletiva e à música independente de Londrina.

SERVIÇO – Show: Bernardo e o Bando — No Coração do Tempo
Data: Sábado, 17 de outubro de 2026
Horário: 21h
Local: Teatro da Associação Médica de Londrina (AML)
Endereço: Rua Maestro Egídio Camargo do Amaral, 130, Praça 1º de Maio, Londrina (PR).
Ingressos: Disponíveis pela plataforma Sympla.
Texto por Thiago (Terror) Furini Rosa

