A arte de contar histórias volta a ocupar escolas, espaços culturais, comunidades e áreas públicas de Londrina a partir desta quarta-feira (19), com o início da 15ª edição do ECOH – Encontro de Contadores de Histórias de Londrina. Até 30 de agosto, o festival realiza 23 apresentações artísticas em diferentes regiões da cidade, além de atividades de formação. A programação reúne artistas de Pernambuco, Paraíba, São Paulo e Londrina e marca também a primeira edição realizada após a morte de Claudia Silva, idealizadora do encontro, cujo legado atravessa as atividades deste ano.
Das 23 apresentações previstas, sete são abertas à comunidade e 16 destinadas a públicos específicos, passando por unidades da rede municipal de ensino, pelo Instituto Londrinense de Educação para Crianças Excepcionais (ILECE) e pelos Centros de Convivência da Pessoa Idosa. Entre os destaques do primeiro fim de semana estão o ator, escritor e narrador pernambucano Luciano Pontes, da Cia. Meias Palavras, a Cia. Forrobodó de Teatro e Cultura Popular, de João Pessoa (PB), e a Cia. MoonLight, de Londrina.
Para a coordenadora do 15º ECOH, Fernanda Nasser, a presença do encontro em diferentes espaços da cidade é parte de uma trajetória construída ao longo de uma década e meia. Segundo ela, o festival estabeleceu uma relação que ultrapassa as datas de realização do evento e envolve escolas, educadores, produtores e outros agentes culturais. “Depois de todos esses 15 anos dessa caminhada, a gente tem uma relação com Londrina já muito fundamentada. Temos parcerias longínquas e outras que vamos fazendo e vão permanecendo. As escolas nos recebem muito bem, os educadores nos procuram para saber a programação antes mesmo do festival começar”, afirma.
Fernanda destaca que esse vínculo também aparece na formação de um público que incorporou o ECOH à agenda cultural da cidade. “É uma construção que tem desdobramentos de público e também de um público que valoriza esse encontro, espera para quando vai chegar a temporada do ECOH, se programa para ir e levar sua família”, acrescenta.
Histórias para diferentes territórios
A descentralização é uma das características que acompanham o festival ao longo de sua trajetória. Para a coordenação, chegar a regiões com menor oferta de atividades culturais é também uma forma de ampliar o contato com a narrativa oral e contribuir para a formação de público. “Toda essa diversidade, esses territórios que a gente percorre, é muito importante para difundir a arte da narrativa oral, porque sempre vamos encontrar alguém que ainda não ouviu uma história contada”, explica Fernanda.
A experiência, segundo ela, não se limita à relação entre artista e espectador. Em algumas atividades, o encontro desperta no próprio público o desejo de compartilhar memórias. Fernanda lembra que, na edição passada, idosos atendidos pelos Centros de Convivência passaram também a contar seus causos e histórias durante as ações.
Nas escolas, o retorno a instituições já visitadas pelo festival permite estabelecer uma relação continuada com estudantes e professores. “Esse trabalho de formação de público também é muito legal. É um ganho tanto para os alunos quanto para os educadores, que ouvem essas histórias e que também contemplamos com atividades formativas”, diz.
A coordenadora reforça ainda a opção por levar a programação para além dos espaços tradicionalmente associados à cultura. “É importante chegar aos territórios que não têm tanta oferta cultural, que muitas vezes não são incluídos na agenda cultural da cidade e que precisam e merecem essa oferta e esse olhar da produção cultural local.”
Formação abre a programação
As atividades começam nesta quarta-feira (19) com a oficina Laboratório das Histórias, conduzida por Marlon Chucruts, da Cia. Malas Portam, de Ubatuba (SP), na Unopar Piza. Serão duas turmas, das 9h às 11h e das 14h30 às 16h30. A proposta é experimentar diferentes possibilidades para a criação e mediação de histórias a partir da memória, imaginação, escuta, corpo, voz, música, objetos, livros e brincadeiras.
Na quinta-feira (20), Aline Alencar e Carolina Guimarães, da Cia. Forrobodó de Teatro e Cultura Popular, ministram Processos Criativos na Arte de Contar Histórias, das 14h às 17h, no Centro de Educação, Comunicação e Artes da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
A atividade trabalha aspectos como escolha de repertório, construção de roteiro e utilização da palavra, voz, corpo, música, brincadeiras populares e dramatização. As duas oficinas são gratuitas, com inscrições pelo site do ECOH.
Espetáculos começam na sexta-feira

A programação artística aberta ao público começa na sexta-feira (21), às 20h, no Auditório do Sesc Londrina Centro, com Histórias do Velho do Saco, de Luciano Pontes. O espetáculo parte de uma conhecida figura do imaginário popular para construir narrativas em que velhos e velhas aparecem associados à sabedoria, ao humor e à poesia. A classificação indicativa é de 6 anos e haverá interpretação em Libras. A entrada é gratuita e, segundo a organização, o público deve chegar com meia hora de antecedência para garantir o acesso.
No sábado (22), às 16h, o ECOH chega à Ocupação Flores do Campo, com uma Praça de Contação e Brincadeiras e o espetáculo Na Gira da Saia, Roda o Coco na Paraíba, da Cia. Forrobodó. A montagem une música e contação de histórias para celebrar o coco paraibano e, especialmente, as mulheres responsáveis por manter viva essa tradição.
A narrativa acompanha Maria Alice, menina curiosa que encontra em Dona Jacira, sua vizinha, uma guardiã de histórias e conhecimentos. O espetáculo volta a ser apresentado no domingo (23), às 16h, durante uma nova Praça de Contação e Brincadeiras no Aterro do Lago Igapó.
No mesmo encontro de domingo, a Cia. MoonLight, de Londrina, apresenta Moridjane. O espetáculo aproxima dança, canto, ritual e narrativa oral ao acompanhar uma Mandjiani, guardiã de uma dança sagrada que busca transmitir seus conhecimentos para uma nova geração. Inspirada nos ritmos e ritos de povos mandingas da África Ocidental, a montagem aborda ancestralidade, identidade, memória e continuidade das tradições. A apresentação também contará com interpretação em Libras.
15 anos e o legado de Claudia Silva
Além de celebrar a trajetória do festival, esta edição carrega um significado especial para a equipe. É a continuidade de um projeto idealizado e liderado por Claudia Silva, que morreu no ano passado. Sua memória será celebrada especialmente no ECOHar, encontro marcado para sábado (22), às 19h, no Centro Cultural SETA.
Com entrada gratuita, o ECOHar reunirá artistas, integrantes da equipe e público em uma noite com música, brincadeiras e comidas. Mais do que uma homenagem pontual, Fernanda Nasser afirma que a presença de Claudia permanece na própria concepção do encontro. “O legado de Claudia, nossa amiga, idealizadora e criadora do Encontro, permanece. A memória dela, a essência dela, está no ECOH nos mais diversos detalhes. Foi uma construção de anos, liderada pela Claudia com muito afeto”, afirma.
Parte da equipe trabalha no festival desde suas primeiras edições. A continuidade também está na curadoria, conduzida por Daniela Fiorutti e Juliano Terno, que mantiveram uma relação próxima com a idealizadora. “Isso reflete na programação, porque são eles que escolhem os artistas e grupos que vão se apresentar e ministrar oficinas. Então, a essência da Claudia também está nessa escolha e nessas histórias que selecionamos para o público”, explica Fernanda.
Segundo a coordenadora, o legado aparece ainda na decisão de manter um encontro intergeracional, capaz de chegar a crianças, estudantes, educadores, idosos e pessoas atendidas por diferentes instituições. “Essa diversidade e essa militância de levar a cultura, as histórias e o encantamento falam muito sobre a Claudia.”
Dar continuidade ao ECOH sem sua idealizadora está também entre os desafios desta edição. A isso se somam dificuldades comuns à produção cultural, como a captação de recursos e a necessidade permanente de buscar editais e patrocínios. “Os desafios são muitos, porque estamos sempre trabalhando na aprovação de projetos, na busca de recursos e de patrocínio. É um trabalho contínuo. Manter o festival não é fácil”, observa Fernanda. “Também não está sendo fácil caminhar sem a nossa idealizadora, nossa amiga, quem criou tudo isso. Mas esse legado e tudo o que ela construiu nos dão motivação para continuar.”
Para a coordenadora, é justamente a experiência proporcionada pela narrativa oral que continua justificando esse esforço após 15 edições: “Sobretudo, existe esse encanto que é você parar para ouvir uma história. A gente vai enfrentando os desafios de continuar esse legado sabendo da beleza da arte da narrativa.”
O 15º ECOH – Encontro de Contadores de Histórias de Londrina segue até 30 de agosto, com atividades gratuitas e programação em diferentes regiões da cidade. O encontro é realizado pelo Instituto Cidadania, com produção do Coletivo ECOH, patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina (Promic) e apoio da Vila Cultural Casa da Vila, Vila Cultural Alma Brasil, CLAC, Canto do MARL, Sesc Cadeião e Rádio UEL FM.
A programação completa está disponível no site do ECOH: ecoh.art.br
Todas as atividades são gratuitas.
Por Thiago Furini


