Edna Aguiar estreia “Brasiliana”, solo sobre mulheres silenciadas

Brasiliana - Foto Valéria Felix

A atriz, dramaturga e pesquisadora Edna Aguiar estreia nesta sexta-feira (7), às 20h, na Divisão de Artes Cênicas da Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o espetáculo solo “Brasiliana”. Com entrada gratuita, a montagem propõe uma reflexão sobre ancestralidade, memória e apagamento histórico feminino a partir das vivências da própria artista. A dramaturgia, escrita em parceria com a atriz Camila Feoli, reúne relatos familiares, documentos históricos e personagens reais para questionar quem são as mulheres que ficaram à margem da história oficial do Paraná.

No palco, Edna constrói uma narrativa inspirada em mulheres que marcaram sua trajetória, como sua mãe, avó, bisavó, a parteira Iaiá e a líder religiosa londrinense Yá Mukumbi. A partir dessas memórias, a atriz costura histórias atravessadas pela perda de território, pelo deslocamento e pelas consequências do chamado “progresso”, transformando experiências pessoais em uma reflexão coletiva sobre identidade e pertencimento.

Segundo Edna Aguiar, transformar essas lembranças em teatro foi um processo intenso, mas também de redescoberta permanente. “Não foi um processo fácil, foi bem difícil, mas muito prazeroso. O resultado acontece todos os dias, porque seguimos redescobrindo coisas sobre nossos ancestrais. E quando falo de ancestralidade, não estou falando de um passado distante, mas das pessoas que vieram antes de nós. Quanto mais falamos sobre aquilo que nos incomoda, mais conseguimos elaborar essas questões. Reescrever nossas histórias é uma forma de permanecer vivo e de alimentar a árvore da nossa família”, afirma.

A peça nasceu de um questionamento que acompanhou a artista durante o processo de pesquisa: por que há tão poucas mulheres registradas na história oficial do Paraná? A partir dessa inquietação, “Brasiliana” busca iluminar trajetórias invisibilizadas e provocar o público a refletir sobre os mecanismos históricos de silenciamento.

Para Edna, antes de dar voz às mulheres é preciso compreender como esse apagamento foi construído ao longo das gerações. “Não é possível mudar aquilo que a gente não reconhece. Primeiro é preciso entender o que aconteceu. O apagamento das mulheres no Paraná foi sendo naturalizado durante muito tempo. Muitas viveram em condições de subserviência, consequência de violências que atravessam gerações. Só o fato de estarmos falando sobre isso já é uma forma de dar voz a essas mulheres.”

Entre as personagens que inspiraram a criação do espetáculo está Vanuíre, liderança indígena que viveu na fronteira entre Paraná e São Paulo no início do século XX. Conhecida por atuar como mediadora de conflitos entre brancos e povos Kaingang, ela chegou a subir em um jequitibá para cantar em defesa da paz durante um confronto. Apesar de sua importância histórica, sua trajetória permanece pouco conhecida.

Edna conta que descobriu Vanuíre durante uma pesquisa sobre mulheres indígenas do Paraná e percebeu o quanto essas histórias permanecem invisíveis. “Tenho 62 anos e só fui descobrir essa história recentemente. Não se fala das mulheres do Paraná, principalmente das mulheres indígenas. Vivemos em um estado que cresce rapidamente, mas onde também vemos a devastação da natureza e o apagamento das personagens femininas que ajudaram a construir esse território.”

Ao reunir memórias familiares, personagens históricas e relatos de mulheres anônimas, “Brasiliana” convida o público a revisitar suas próprias origens. Mais do que emocionar, o espetáculo pretende despertar um sentimento de inquietação diante das desigualdades que ainda persistem.

Edna revela que, desde o início da criação, desejava que a montagem terminasse provocando um forte impacto na plateia. “Eu queria um caos. Um caos que sensibilizasse as pessoas, que provocasse indignação. Espero que o público saia disposto a agir, a olhar para essas histórias e compreender que elas continuam acontecendo. Só assim começamos a transformar essa realidade.”

Com duração de 50 minutos e classificação indicativa de 18 anos, “Brasiliana” terá três temporadas gratuitas. Após a estreia na Divisão de Artes Cênicas da UEL, o espetáculo segue para a Usina Cultural, em Londrina, e depois para o Teatro José Maria Santos, em Curitiba.

A direção dramatúrgica é de Camila Feoli, enquanto a direção cênica foi construída de forma coletiva com Camila Feoli, Lua Lamberti, Nara Motta, Rogério Francisco Costa e Thunay Tartari. A direção de movimento é de Ailton Galvão. Os figurinos são assinados por Alex Lima e Rogério Francisco Costa, que também responde pela cenografia. A trilha sonora e direção musical são de Thunay Tartari, e a iluminação tem direção técnica e operação de Nara Motta.

SERVIÇO:

1ª TEMPORADA

Brasiliana

07/08/2026 (sexta-feira): estreia às 20h

08/08/2026 (sábado): sessão única às 20h

09/08/2026 (domingo): 1ª sessão às 16h – 2ª sessão às 20h

Local: Divisão de Artes Cênicas da Casa de Cultura UEL – Av. Celso Garcia Cid, 205, Londrina

Link para os ingressos gratuitos

2ª TEMPORADA

Brasiliana

Local: Usina Cultural (Av. Duque de Caxias, 4159, Londrina):

14/08/2026 (sexta-feira): sessão única às 20h

15/08/2026 (sábado): sessão única às 20h

16/08/2026 (domingo): 1ª sessão às 16h – 2ª sessão às 20h

Local: Usina Cultural – Av. Duque de Caxias, 4159, Londrina

3ª TEMPORADA

Brasiliana

20/08/2026 (quinta-feira): sessão única às 20h

21/08/2026 (sexta-feira): sessão única às 20h

22/08/2026 (sábado): 1ª sessão às 16h – 2ª sessão às 20h

Local: Teatro José Maria Santos – R. Treze de Maio, 655, Curitiba

Nicholas Emmanuel, André D’Lucca e Paulo Vitor Poloni