Hardcore 90 conecta memória do punk à resistência underground em Londrina

Os diretores Marcelo Fonseca e George Ferreira - foto leo.photoos
Os diretores Marcelo Fonseca e George Ferreira - foto leo.photoos

A história do hardcore brasileiro encontrou a resistência da cena underground londrinense no dia 17 de outubro, quando o documentário Hardcore 90 foi exibido no Rochas Bar. A sessão, organizada pelo Coletivo Bolo Loco, reuniu cinema, debate com os diretores Marcelo Fonseca e George Ferreira e apresentações das bandas Subcut, Dismal Foresight, Hasfixia e Mauthausem. A iniciativa integrou a circulação nacional do filme e reforçou a importância dos coletivos independentes na preservação da memória e na movimentação cultural fora dos grandes centros.

Mais do que receber uma produção audiovisual, Londrina participou de um encontro entre gerações que ajudaram a construir e continuam sustentando o movimento punk e hardcore. A proposta do Bolo Loco foi aproximar o público de uma história que também se reflete na trajetória das bandas, produtores e espaços alternativos da cidade. “Trouxemos o documentário por ser um registro histórico. Fizemos um evento completo, com cinema, shows de bandas e economia criativa, de forma acessível, para que as pessoas pudessem conhecer e respirar essa cultura”, explica Ruy Osório, integrante do coletivo.

Ruy Osório, do Coletivo Bolo Loco e Cientista" da banda Surface - foto divulgação
Ruy Osório, do Coletivo Bolo Loco e Cientista” da banda Surface – foto leo.photoos

Com atuação desde 2004, o Bolo Loco tem contribuído para a circulação de bandas e a realização de eventos independentes em Londrina. Para Ruy, manter essa movimentação significa criar espaços de convivência e fortalecer uma cultura construída coletivamente. “A maioria das bandas de Londrina já tocou nos nossos eventos. Estamos desde 2004 fazendo esse trabalho, fomentando a cultura, sendo resistência e criando ambientes de respeito. A gente está sempre fazendo a nossa parte”, afirma.

A programação também teve caráter solidário, com arrecadação de alimentos destinados ao Lar Anália Franco. A combinação entre documentário, música ao vivo e ação social reforçou uma característica histórica do movimento punk: a organização independente como ferramenta de expressão cultural e mobilização coletiva.

A história de uma geração que transformou o hardcore

Lançado em 2025, Hardcore 90 recupera um período fundamental da música independente brasileira. O documentário de 91 minutos revisita os anos 1990, quando uma nova geração de bandas ampliou as possibilidades musicais e políticas do hardcore, ajudando a superar conflitos que marcaram parte do movimento punk na década anterior.

Bandas como No Violence, Agrotóxico, Ação Direta, Garage Fuzz, Dominatrix, ROT e Abuso Sonoro estão entre os nomes que representam essa transformação, marcada pela expansão das redes independentes e pela valorização de novas pautas sociais. “A maior mudança daquela geração foi a abertura de novas possibilidades musicais e de temas também, assim como uma diversidade maior de pessoas envolvidas. Foi uma época de reconstrução, de novas ideias e de reavaliação do que foi feito nos anos 80”, destaca o diretor George Ferreira.

Para Marcelo Fonseca, a superação da violência e da mentalidade de gangues foi decisiva para a consolidação do movimento. Ele observa que, embora o documentário tenha como principal referência a cena paulista, experiências semelhantes ocorreram em cidades de diferentes tamanhos pelo Brasil.

Um documentário construído de forma independente

Exibição do documentário Hardcare 90 - foto leo.photoos
Exibição do documentário Hardcare 90 – foto leo.photoos

A própria produção de Hardcore 90 carrega o espírito do “faça você mesmo”. O projeto nasceu de uma pesquisa de mestrado de Marcelo Fonseca e, a partir de 2011, ganhou uma equipe consolidada com George Ferreira e Mario Cesar Rabello. As filmagens ocorreram entre 2008 e 2018, reunindo mais de 100 entrevistas e um extenso acervo de registros históricos.

Um dos maiores desafios foi recuperar imagens de uma época em que a circulação da música acontecia por cartas, fanzines, fitas demo e gravações caseiras. “A gente teve que trabalhar muito com o acervo produzido pelas próprias pessoas”, explica Marcelo. Segundo ele, a dificuldade de acessar imagens de emissoras de televisão levou a equipe a utilizar gravações amadoras em VHS, muitas delas guardadas durante décadas por integrantes da cena. “O trabalho de levantar as imagens e selecionar esses conteúdos acabou impactando também a própria estética do filme”, acrescenta.

O documentário estreou nacionalmente em junho de 2025, na 17ª edição do In-Edit Brasil, Festival Internacional do Documentário Musical, em São Paulo. Desde então, vem percorrendo diferentes cidades brasileiras, acompanhado de debates e apresentações de bandas locais.

Para George, essa circulação representa uma oportunidade de estimular novas produções independentes. “A ideia é inspirar pessoas para que comecem seus projetos autorais, documentem a cena, resgatem momentos e memórias importantes dessa movimentação e olhem para o presente e para o futuro de maneira altruísta e revolucionária.”

Marcelo também destaca a presença de jovens nas sessões, contrariando a expectativa inicial de que o filme interessaria principalmente a quem viveu os anos 1990. Para ele, o contato entre gerações demonstra que o hardcore continua sendo um espaço de aprendizado e transformação.

A resistência continua em Londrina

A passagem de Hardcore 90 por Londrina mostrou que a história retratada no documentário permanece ligada ao presente. Se nos anos 1990 bandas e produtores precisavam construir suas próprias redes de circulação, hoje iniciativas como o Coletivo Bolo Loco continuam criando alternativas para a produção cultural independente.

Em uma cidade com tradição na música underground, a manutenção desses espaços depende da articulação entre artistas, produtores e público. A iniciativa de trazer o filme ao Rochas Bar demonstrou como a organização coletiva pode ampliar o acesso à cultura e valorizar trajetórias que muitas vezes permanecem fora dos registros oficiais.

Para George Ferreira, apesar das mudanças provocadas pelas redes sociais e pelas plataformas digitais, a essência do movimento permanece. “Acredito que o que permanece são os alicerces dessa comunidade: a música e a mensagem.”

Marcelo considera que cada geração enfrenta seus próprios desafios, mas vê no hardcore um ambiente fértil para novas ideias, práticas coletivas e formas de resistência. Nesse sentido, preservar a memória também significa incentivar novas histórias.

Ao reunir diferentes gerações, bandas locais e realizadores independentes, a exibição de Hardcore 90 ultrapassou o caráter de uma sessão de cinema. A iniciativa do Coletivo Bolo Loco estabeleceu uma conexão entre a história do hardcore nacional e o trabalho de quem continua movimentando a cena underground londrinense.

Mais de três décadas depois, o espírito do “faça você mesmo” segue presente, mostrando que a resistência cultural não se limita ao passado: ela continua sendo construída a cada show, encontro e iniciativa independente.

Texto por Thiago (Terror) Furini Rosa

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