Nicholas Emmanuel transforma emoções em narrativa sonora no álbum Enigma Consciência

Nicholas Emmanuel lança Enigma Consciência - Foto Costa Domingos

O músico, compositor e produtor musical Nicholas Emmanuel amplia sua pesquisa entre música, narrativa e experiências pessoais em Enigma Consciência, terceiro álbum de sua discografia. Instrumental, o trabalho mergulha nas oscilações emocionais e nas mudanças de humor por meio de sete faixas que combinam elementos da música sinfônica, eletrônica e experimental.

Com cerca de 40 minutos de duração, o disco constrói uma paisagem sonora formada por cordas, sopros, corais, sintetizadores, sequenciadores e técnicas de sampleamento. Ao longo do processo de produção, arranjos inicialmente elaborados com instrumentos virtuais ganharam novas camadas e gravações orgânicas, ampliando as possibilidades sonoras das composições.

Para Nicholas, transformar sentimentos em música surge como um processo mais intuitivo do que racional. Embora se considere uma pessoa que tende a racionalizar as próprias experiências, é justamente na composição que encontra espaço para expressar aquilo que nem sempre consegue traduzir em palavras. “É onde, de fato, eu consigo me expressar e não só racionalizar as coisas. É um momento de escape até da minha própria cabeça”, afirma. Segundo o músico, enquanto o trabalho como produtor exige compreender as propostas e universos artísticos de outras pessoas, sua produção autoral percorre o caminho inverso. “No meu trabalho enquanto produtor musical e compositor, eu vou muito de dentro para fora. Não tento entender muita coisa, tento expressar o que talvez já tenha ou mesmo não tenha sido entendido.”

Nicholas Emmanuel – Foto Costa Domingos

Natural do interior do Paraná e fundador da produtora Casa Amarela, Nicholas desenvolve uma trajetória marcada pelo diálogo entre música, audiovisual e artes cênicas. O primeiro álbum, Fôlego, lançado em 2019, nasceu como trilha sonora para um espetáculo de dança contemporânea homônimo. Dois anos depois, Voz à Malta abordou a síndrome de Tourette por meio de composições interpretadas por artistas convidados e também estabeleceu conexões com seu primeiro curta-metragem.

As experiências pessoais permanecem como matéria-prima de sua criação. Questões relacionadas à síndrome de Tourette, ao TDAH, à depressão e às mudanças de humor atravessam diferentes momentos de sua discografia, mas, segundo Nicholas, não são incorporadas às músicas como temas externos a serem estudados. Elas fazem parte da própria identidade do compositor.

“Acredito que [essas experiências] mudam minha identidade como pessoa mesmo. Principalmente em relação à síndrome de Tourette, há decisões que são tomadas acerca disso, até microdecisões”, explica. “Minha personalidade musical também não é diferente. É muito mais sobre transcrever uma vivência dessa personalidade do que impor essa personalidade dentro da música.”

Em Enigma Consciência, essa investigação ganha uma narrativa construída sem palavras. Temas musicais surgem, desaparecem e retornam transformados por diferentes tonalidades, harmonias, ritmos e contextos sonoros. O recurso cria uma sensação permanente de movimento e procura traduzir musicalmente as alterações de estados emocionais.

A narrativa é conduzida simbolicamente por três criaturas metafóricas, associadas a diferentes estados emocionais. Dessa maneira, o compositor aproxima a abstração da música instrumental de experiências humanas reconhecíveis pelo público.

O álbum também evidencia uma transformação na escrita musical de Nicholas. As faixas apresentam estruturas harmônicas e rítmicas mais elaboradas, ao mesmo tempo em que preservam elementos recorrentes em sua produção, como o uso expressivo dos sintetizadores, a exploração de diferentes timbres e a preocupação em construir uma obra que possa ser acompanhada como uma narrativa do início ao fim.

A convivência entre instrumentos orquestrais, recursos eletrônicos e experimentação é resultado tanto das referências acumuladas pelo artista quanto de uma busca constante por novas possibilidades de produção. Nicholas afirma que procura acompanhar as transformações tecnológicas sem abandonar as influências que fizeram parte de sua formação musical.

“As coisas antigas de que eu gostava ainda gosto, mas as coisas novas também entram, também têm lugar. Tenho esse apreço por combinar as coisas”, afirma. Sem se prender a uma identidade delimitada por um único gênero, ele entende a composição principalmente como ferramenta de expressão.

A combinação entre universos aparentemente distintos também passa por um longo processo de experimentação no estúdio. “Ao longo da composição, muitas coisas vão sendo colocadas e eu vou tirando. Coloca e tira, ficou ruim, ficou bom. Até chegar a um resultado final”, conta. Para o produtor, essa “alquimia” é resultado também da experiência acumulada ao longo dos anos trabalhando com composição e produção musical.

Conhecimento compartilhado

Nicholas Emmanuel – Foto Costa Domingos

Além do lançamento do álbum, Enigma Consciência amplia seu alcance por meio de uma ação formativa. Viabilizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o projeto prevê uma oficina de montagem de som destinada a grupos ligados à cultura popular.

A iniciativa está diretamente relacionada à atuação de Nicholas como produtor cultural e à sua experiência como professor de música. Para ele, compartilhar conhecimentos técnicos pode contribuir para ampliar a autonomia de artistas e coletivos que nem sempre dispõem da mesma estrutura para desenvolver seus projetos. “Eu acredito muito no fortalecimento dos grupos de produção cultural da cidade e me identifico muito com alguns grupos que às vezes começam sem ter toda a estrutura que outros já começam tendo”, explica.

Nicholas ressalta que a proposta não está relacionada à ideia de concorrência entre artistas, mas à criação de condições para que mais pessoas consigam produzir e apresentar seus trabalhos. A percepção também nasce de sua própria trajetória profissional, marcada pela necessidade de aprender diferentes funções para conseguir desenvolver seus projetos de maneira independente. “Eu venho de um lugar em que tinha que aprender muito para poder fazer acontecer para mim, aprender todas as funções possíveis, senão não acontecia”, lembra.

Nesse processo, a experiência como educador permanece presente. Embora atualmente não tenha o ensino como sua principal atividade, Nicholas afirma que o compartilhamento do conhecimento continua sendo parte importante de sua atuação. “Esse conhecimento musical, esse conhecimento técnico principalmente, deve ser compartilhado. As pessoas precisam ter acesso e entender como essas coisas funcionam”, defende.

A proposta da oficina é justamente aproximar esse universo técnico de grupos que atuam com manifestações da cultura popular, oferecendo ferramentas para que possam compreender e operar estruturas de sonorização em apresentações, festivais e outros projetos.

Para Nicholas, quanto maior o domínio dos artistas sobre as diferentes etapas de uma produção, melhores podem ser os resultados para toda a cadeia cultural. “Todo o ecossistema artístico e cultural se alimenta desse conhecimento compartilhado”, afirma.

Com Enigma Consciência, Nicholas Emmanuel reúne, assim, diferentes frentes que atravessam sua trajetória: a investigação da própria experiência por meio da composição, a experimentação entre linguagens musicais e tecnologias e o interesse pela circulação do conhecimento. Se as emoções funcionam como ponto de partida do disco, é na transformação delas em sons, timbres e movimentos que o compositor constrói uma narrativa aberta à interpretação de cada ouvinte.

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